Somos todos Yiannis Kouros

Somos todos Yiannis Kouros

 

Em 1983, um produtor de batatas australiano de 61 anos decidiu que era hora de correr os 875 quilômetros que separavam dois shopping centers entre Sidney e Melbourne. Ninguém nunca tinha ouvido falar do sujeito, mas isso não o impediu de ganhar a ultramaratona, com um tempo impressionante de 5 dias, 15 h e 4 min – isso dá uma média de 171,5 km/dia, ou 10 km/hora, se considerar um tempo de descanso entre cinco e seis horas por dia.

Seu recorde nessa competição foi apenas superado pelo imbatível grego Yiannis Kouros, caboclo que detém há décadas todos os recordes mundiais de corridas de longa distância entre 100 km e 1.000 km. Ele venceu essa ultramaratona em cinco das nove edições realizadas.

Como se não fosse suficiente, o mesmo Kouros, em 1997, estabeleceu o recorde mundial para corridas de 24 horas em circuito fechado, percorrendo a ridícula distância de 303,5 km em um único dia. Um mito.

Scott Jurek, o renomado ultramaratonista, ganhador de nada menos do que sete edições seguidas da Western States 100, uma prova de 160 km considerada uma das mais difíceis dos Estados Unidos, venceu, em 2007, os 250 km da Spartathlon (ultra entre Atenas e Esparta) com o dedão quebrado.

Falando em Western States, em meados da década de 90, a ultramaratonista norte-americana Ann Trason provou seu valor ao vencer essa prova menos de duas semanas após ter também vencido a Comrades (de 90 km), na África do Sul, cujas subidas fazem da maratona africana uma das mais exigentes na casa das 50 milhas de percurso.

A corrida Man versus Horse anualmente no País de Gales coloca homens competindo contra cavalos por 35 km, no verão do hemisfério norte, e em pelo menos duas ocasiões desde 1980, incrivelmente, o homem superou o cavalo (2004 e 2007). Segundo a revista Slate, as casas de apostas não ficaram muito felizes com o resultado, e tiveram que pagar apostas nada menos do que 16 para 1 pela vitória dos humanos.

Em julho de 2013, eu corri meu primeiro quilômetro sem parar e sem botar a culpa no clima, no cansaço ou no excesso de proteína animal ingerido. Em agosto, fiz meus primeiros 5k. Em setembro, animadamente corri meus primeiros 10k (posto 2 da Praia do Flamengo até a Praia Vermelha, e volta) em 1h e 8min, apenas para ser rebaixado por Ricardo Zanirato com a notícia de que o pai dele, de mais de 60 anos, fazia o percurso em 48min. Em novembro, corri uma prova da Nike de 10km com uma amiga em 1h cravado.

Nunca divulguei nada disse nas redes sociais, mas acho válido para quem quer. 

Às vezes é chato abrir seu Facebook logo após acordar às 9h e ver que alguém na sua timeline postou que levantou às 6h para correr 12km em 55 min. Tem gente que fica irritada quando os outros se gabam das provas que correram. Acham (né, Marcos Caetano?) que correr é chato pra caralho. Mas a verdade é que correr é uma vitória pessoal, não pros outros, e se publicaram nas redes sociais foi mais para um certo reconhecimento próprio do que para se gabar frente aos sedentários ou àqueles que preferem outras atividades.

Ontem, saí para correr com minha patroa os 3,2 km de uma pista perto do Jardim Botânico de Curitiba. Chovia, não horrores, mas chovia. Ela poucas vezes parou um pouco pra andar, e eu seguia em frente e voltava para buscá-la a cada 500 m. Foi uma excelente corrida. Ela chega lá.

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