THE WALL

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esporte mazzaropi 2

Quando eu era moleque, eu sonhava em ser goleiro. Era início dos anos 80, e sempre que ia ao Maracanã, podia ver as defesas incríveis de Paulo Victor, Raul, Paulo Sérgio, Gilmar (Bangu) e Mazzaropi. Eram verdadeiras muralhas, deixando os domingos mais emocionantes e os campeonatos sempre disputadíssimos. Os anos passaram, e nas peladas – até pra tentar garantir uma vaguinha – fui tratando de me escalar no gol. Cheguei até a pegar pênaltis em clássicos do colégio. Mas se os anos e a experiência debaixo das traves vieram (mesmo não sendo lá nenhum grande arqueiro), os centímetros na altura nunca chegaram como eu esperava. Estacionei no meu 1,72m, o que fez de mim um goleiro verticalmente desafiado, e um brasileiro médio. Enquanto tentei jogar bola, sempre acabava indo pro gol. Por conta desse sonho frustrado, sempre olhei com mais fascinação para a região da pequena área. Continuo gostando de ver grandes arqueiros em ação. Vai ver herança do meu DNA tricolor, clube que sempre teve tradição de ter e revelar bons goleiros. Por conta disso, ontem foi um dia de festa. No disputadíssimo jogo entre Bélgica e  Estados Unidos, mais uma vez os goleiros se destacaram. Muitos inclusive dizem que é a Copa dos  grandes goleiros. Mas ontem quem brilhou, mesmo com a derrota de seu time, foi o goleiro americano, Howard. Com DEZESSEIS defesas sensacionais ao longo do jogo e prorrogação, Howard encheu de orgulho quem ama atuar debaixo das traves. Camus, Garcia Marquez e eu (humildemente), estamos nessa lista. O paredão americano impedia os tentos belgas de todas as maneiras possíveis. Em cima, em baixo, do lado, com os pés, com as mãos, e – como fazia Paulo Victor em 1984 – até com o pensamento. Parecia que nada poderia fazê-lo errar. Mas futebol é um esporte coletivo, e numa falha boba da defesa yankee, a valente e ofensiva Bélgica conseguiu transpor o paredão. Howard, de tantas defesas, voando com a força e inspiração de todos os goleiros do mundo, finalmente tinha sido vencido. Só que quem venceu mesmo foi o futebol. Há mais de quatro décadas um só camisa 1 – sem essas frescuras de ser camisa 12, 23 ou 99 – não brilhava tanto numa só partida de Copa do Mundo. Por alguns instantes, ontem voltei a sonhar em ser goleiro. Acho até que fui dormir um pouco mais alto. E o futebol lembrou a muita gente que nem sempre o gol é a estrela da festa. Ainda bem.

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