THE GREATEST

THE GREATEST

Às vezes, uma notícia vadia, dessas que ficam perdidas entre os anúncios das páginas de um jornal ou nos mais recônditos espaços de um site, tem o poder de despertar eloquentes conversas. Foi o que aconteceu comigo na semana passada, quando li que o ringue no qual foi disputada aquela que nove entre dez amantes do esporte apontam como a maior luta de todos os tempos – Ali vs. Foreman, “The Rumble in the Jungle”, Zaire, 1974 –, havia sido roubado. Despretensiosamente, enviei a matéria para o meu irmão, Léo Caetano, colunista do nosso valente 433 e amante da “doce ciência”, que é como os norte-americanos das melhores safras se referem ao esporte das luvas. “Ringue de Ali x Foreman foi roubado”, dizia o link. Léo me respondeu de bate-pronto, e eu senti o mais profundo pavor em sua mensagem de texto: “Estou morrendo de medo de ler essa matéria e perder para sempre a fé na raça humana”.

Por que diabos a notícia sobre o roubo de um ringue na República Democrática do Congo, antigo Zaire, seria capaz de fazer uma pessoa deixar de crer na nossa espécie? Não que ela mereça muito crédito, mas eu poderia listar um milhão de coisas capazes de causar a perda da fé no homo sapiens antes de pensar num singelo ringue da cidade de Kinshasa. Mas a explicação não tardou a chegar: “Ufa! Li a matéria e ela trata do roubo do ringue propriamente dito, não de uma luta roubada”. Por alguma razão, meu irmão achou que a reportagem poderia conter denúncias de roubo no resultado da luta. E aí eu entendi o pavor contido em sua primeira mensagem. Porque se aquela luta tivesse sido armada, eu jamais me permitiria acompanhar esportes outra vez. Nem final de Copa do Mundo, nem Olimpíada no Brasil, nem campeonato de botão do prédio. Como meu irmão, eu também perderia a fé na raça humana.

Felizmente, o triunfo do caráter de Ali sobre o mais temível adversário de todos os tempos, a mais improvável e espetacular vitória do engenho humano desde Azincourt, permanecia imaculada. O mesmo não pode ser dito do ringue, embora muitos considerem isso irrelevante. Será mesmo? Acompanhem esta digressão pugilística até o fim – e eu prometo lançar um olhar diferente sobre o ringue desaparecido.

Aprecio boxe principalmente devido ao messianismo do meu irmão, que me fez ver como uma luta pode ser épica, imprevisível e, mais do que tudo, um pungente exercício de solidão. “Quando soa a campainha, não fica nem o banquinho no ringue. O pugilista está absolutamente só”, costuma dizer Newton Campos, jornalista, comentarista esportivo, jurado de lutas, presidente da Federação Paulista de Boxe e o maior conhecedor vivo dos mistérios da “nobre arte dos punhos”. Esta última expressão também é dele, que datilografou numa velha máquina portátil, em pleno voo de Kinshasa para São Paulo, a única matéria de fôlego da imprensa brasileira sobre aquele momento épico do esporte. A honra de publicá-la coube à Gazeta Esportiva. Meu irmão e eu não sossegamos enquanto não comprarmos a tal máquina de escrever, mas isso já é assunto para outra coluna.

A solidão do pugilista, a complexa cosmologia e a aura de mistério e crueza que cerca o boxe são aspectos que jamais escapam à sensibilidade de um bom escritor. Talvez por isso, gênios como Ernest Hemingway, Gay Talese, Truman Capote e tantos outros tenham produzidos umas tantas laudas de belos textos sobre o pugilismo. Quem procura entender o drama do boxe deveria ler “A Luta”, do magistral Norman Mailer, e assistir o documentário ganhador do Oscar “Quando Éramos Reis”. Ambos tratam justamente do combate travado sobre o ringue roubado. Os que se debruçarem sobre essas duas obras-primas vão entender por esse é um dos raros temas que apaixonam igualmente intelectuais e o populacho.

alipeqO capítulo “O Homem na Cordoalha”, no qual Mailer descreve como Ali passou vários assaltos recostado sobre as cordas, absorvendo poderosos golpes e cansando o virtualmente invencível Foreman para em seguida, quando parecia mais derrotado, reverter tudo e nocauteá-lo, é das coisas mais impressionantes que já li. Também foi de Mailer o mais belo comentário no premiado documentário: “No instante de desfecho da luta, Ali teve um último golpe guardado no punho direito – mas ele jamais o desferiu. Não queria que nada, nem ele mesmo, atrapalhasse o prodígio de ver aquele gigante tombar”. Enquanto o grande escritor e jornalista dá esse testemunho, a cena é mostrada no filme. Ali acompanha o desmoronamento de Foreman num misto de júbilo, orgulho, espanto e picardia. E então, nem que por um segundo, você tem a mais profunda certeza de que ele foi o maior atleta de todos os tempos.

Muhammad Ali foi reaparecer em minha vida, entre o combate do Zaire e o premiado documentário, acendendo a pira olímpica dos jogos de Atlanta com uma tocha em suas mãos trêmulas. Consumido pelo mal de Parkinson, Ali era uma sombra do lutador maior do que a vida que derrubou um gigante 22 anos antes, mas seu olhar continuava exatamente como em minhas mais adoradas memórias. Um olhar de rei, de soberano dos ringues e da vida. Instantes antes da pira ser acesa, um vento maldito lançou a chama da tocha sobre o braço de Ali. Eu jurei que ele ia deixa-la cair. Agonia e dor que terminaram em júbilo, exatamente como sua história olímpica. A história de um campeão que atirou sua medalha de ouro no fundo de um rio por sentir-se vítima do preconceito em seu país. Uma medalha que lhe foi devolvida com os juros da honra de acender o fogo olímpico.

Quantos países dariam a um atleta que jogou fora uma medalha o papel mais importante em uma cerimônia de abertura? Quantos atletas saudáveis não deixariam cair ao chão a tocha cuja chama queimava sua pele? Mas Ali, também conhecido como The Greatest, não largou a tocha. Acendeu a pira e, ao fazer isso, incendiou todos os corações do mundo. Quem não chorou naquele estádio, pode pedir asilo político em algum planeta inferior: humano é que não é.

E então chegamos ao ringue, à história que parece banal. Reflitam sobre o seguinte: o deserto no qual Davi derrotou Golias permanece onde sempre esteve, ao contrário dos dois contendores. Os campos da batalha de Azincourt por lá permanecem, embora sem Henrique V e qualquer um dos soldados britânicos e franceses para contar sua história. As grandes batalhas da humanidade seguem o mesmo destino: as Termópilas permanecem sem Leônidas e seus trezentos de Esparta a lhe defender. Todas as praças de combate sobrevivem aos seus protagonistas. Coube a Ali subverter a lógica, porque enquanto ele e Foreman seguem vivos para contar a história de sua grande luta, o palco do combate desapareceu para todo sempre.

Escrevo esta última frase instantes depois de fechar os olhos e visualizar, nos menores detalhes, o sorriso pícaro de Muhammad Ali ao tomar conhecimento da notícia despretensiosa que motivou este despretensioso texto coberto de memórias afetivas.

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