SUNDAY, BLURRY SUNDAY (OR WEDNESDAY, BLEARY WEDNESDAY)

SUNDAY, BLURRY SUNDAY (OR WEDNESDAY, BLEARY WEDNESDAY)

SUNDAY, BLURRY SUNDAY

(OR WEDNESDAY, BLEARY WEDNESDAY)

A não ser que você seja um alienígena ou um alienado em cultura pop, certamente conhece a canção “Sunday, Bloody Sunday”, do midiático U2. O que talvez não saiba é que há outra canção com o mesmo título, de autoria de John Lennon e Yoko Ono, que consta do álbum “Some Time in New York City”. Ambas as canções tratam do sangrento domingo em Derry, a segunda maior cidade da Irlanda do Norte, em que soldados britânicos atiraram em manifestantes que protestavam contra as prisões sumárias e sem julgamento durante a guerra sectária entre legalistas e republicanos, matando quatorze civis. Recém-radicados em NYC, Lennon e Yoko lançaram essa música em 1972, mesmo ano do massacre, enquanto a banda irlandesa o fez onze anos depois – ainda dentro do prazo de validade, já que o conflito continuava e persistiria ainda até o final do século XX.

Acontece que, infelizmente, esse não foi o único episódio violento batizado de “Bloody Sunday”, nem mesmo considerando apenas as latitudes das ilhas da Grã-Bretanha e “Esmeralda”. Tampouco foi o de maior importância histórica: em 21 de novembro de 1920, Dublin foi palco de um dos acontecimentos mais relevantes da luta armada que culminou na independência da Irlanda do domínio da Coroa britânica. Naquele dia, foram extintas 31 vidas no total, dos quais também quatorze civis irlandeses, mais os belicosos fardados de um lado e rebeldes do outro. Esse episódio trágico veio a ser o ponto de virada do conflito de separação, não apenas porque o núcleo da inteligência britânica foi praticamente eliminado, mas principalmente porque diante do horror do massacre de pessoas inocentes que foram ao estádio assistir a uma partida de futebol contribuiu para que a população passasse a apoiar o movimento de secessão.

Isso mesmo: o “Domhnach na Fola”, como é conhecido o episódio na língua gaélica irlandesa – a mais antiga literatura vernacular da Europa Ocidental -, teve seu ápice brutal no estádio Croke Park. Pouco antes da partida começar, entre os times de “futebol gaélico” (uma espécie de misto do futebol association com o rugby, em que usam-se mãos e pés e uma bola esférica) de Dublin e de Tupperary, as forças de segurança britânicas se infiltraram na multidão, alegadamente para capturar os rebeldes que tinham perpetrado o assassinato de espiões e membros do serviço secreto real, e abriram fogo indiscriminadamente contra a multidão de cinco mil pessoas presentes ao estádio.

A essa altura, você que conseguiu ter mais curiosidade do que impaciência ou sono e continuou a leitura até aqui, deve estar se perguntando o porquê de relembrar esse fato histórico neste momento. A resposta são duas, mas poderiam ser inúmeras, infinitas. Por um lado, para mostrar que o futebol – em sentido amplo, já que existem vários futebóis1 no mundo, não apenas aquele que conhecemos e aprendemos a amar ou amamos desde que nascemos, ou em âmbito ainda mais ancho, o esporte – nada mais é do que uma representação da vida e, como tal, muitas vezes vira corruptela desta. Da mesma forma em que, na quarta-feira passada, o mundo foi surpreendido pela prisão dos dinossauros corruptos da alta cúpula da FIFA, por determinação da advogada-geral dos EUA. O futebol mais uma vez aparece nas páginas dos jornais fora do caderno de esportes.

O palco utópico do esporte vira vida real, e tudo que há de mágico desaba no mundo concreto que, e em que, vivemos. Mas essa é apenas a explicação parcial e clichê para a razão e a linha mestra deste texto. A outra é que tudo está conectado. Todos os fatos e acontecimentos da vida se interligam num emaranhado praticamente indecifrável, que permite qualquer interpretação, dependendo do prisma individual, pessoal de cada um. Senão, vejamos: anteontem fui a um concerto do Billy Idol em Nova Iorque, região onde moro há “algum tempo” (sendo mais preciso, vivo em Nova Jérsei, estado vizinho, desde o final de abril deste ano). Billy Idol, inglês, atingiu as paradas de sucesso nos Estados Unidos da América exatamente em 1983, ano em que o U2 – que se apresentará no Madison Square Garden em julho próximo, e para o qual também já tenho ingressos – lançou a música que inicia este artigo. O riff básico e as letras iniciais começaram a ser traçados por The Edge exatamente quando Bono Vox estava em lua de mel na Jamaica, lugar onde também passei honeymoon, que já foi parte do mesmo império britânico e que cifradamente dá título à única música reggae-like da icônica banda, também inglesa, Led Zeppelin: “D’yer Mak’er”, que foi lançada em 1973, mesmo ano de lançamento de “I Shot The Sheriff” – e talvez se possa inferir que ambas as canções tenham sido gestadas em 1972, ano do massacre de Derry -, do jamaicano Bob Marley, que foi gravada por Eric Clapton, também inglês, no ano seguinte, e que versava sobre um suposto confronto com autoridades policiais, de certa forma como nos aqui citados domingos sangrentos irlandeses. Nem todos os fãs inveterados do Led Zeppelin, que no início se chamava “New Yardbirds” – referência àquela que teve em sua composição o mesmo Clapton, em cujo show em São Paulo também estive presente, no mesmo estádio do Morumbi onde assisti a uma apresentação pirotécnico-musical do U2 -, sabem que essa música faz um trocadilho com o nome da ilha caribenha, tão ilha, e sob vários aspectos tão efervescente, quanto a Grã-Bretanha ou a Irlanda. O jogo de palavras e fonemas tem origem em uma velha piada de lá, em que um sujeito conta que sua mulher foi para o Caribe. O outro então pergunta: “Jamaica?”, mas o primeiro responde: “Não, ela foi por conta própria”, pois equivocadamente havia entendido a pergunta como sendo “Did you make her?” (“Você quem a bancou?”), que na pronúncia londrina dá no mesmo.

Essa busca por ligar fatos aparentemente desconexos remete diretamente a John Nash, matemático americano ganhador do prêmio Nobel de economia, cuja história de genialidade e esquizofrenia paranoide foi interpretada no filme “Uma Mente Brilhante”. Nesse belo relato, apesar do canastrão Russel Crowe no papel principal, há uma cena em que o protagonista se dá conta que a conspiração mundial que ele achava que vinha descobrindo, a partir de supostas mensagens cifradas em vários jornais, não passava de fantasia da sua cabeça, de uma armadilha criada pelo seu próprio cérebro atormentado. Nash morreu junto com sua mulher na sexta passada num acidente de carro na autoestrada New Jersey Turnpike, ao sair do aeroporto de Newark, o mesmo onde nesta quinta-feira embarco para uma viagem de dez dias pela República da Irlanda e Irlanda do Norte.

Tudo está de certa forma ligado. A insanidade mental de cada um é que determina o alcance e a força dessas conexões aparentes, e se essa percepção tem um limite ou vai levar o observador a um loop infinito ou à mais nova teoria da conspiração do momento. Assim como pode ser que alguma disfunção cerebral ou desequilíbrio momentâneo explique porque aqueles que amam o futebol possam ter a esperança de que o episódio da última quarta-feira seja um ponto de virada na libertação do futebol do domínio de uma máfia. Ou meros devaneios de um domingo embaçado.

 

  1. ou futebols, dada a etimologia da palavra. ?

 

[Foto extraída de http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/2/28/Edward_Daly_Bloody_Sunday.jpg, mostrando o padre Edward Daly acenando com um lenço branco ensanguentado, enquanto tentava resgatar Jackie Duddy, ferido mortalmente, no Bloody Sunday de 30 de janeiro de 1972.]

Comentários

Comentários