Sobre cocaína e sotaques

Sobre cocaína e sotaques

Depois do impeachment, da Lava-Jato, do apito amigo no Itaquerão, do dólar e da prima do Aécio Neves que morreu esfaqueada no Recreio, a polêmica do momento é o sotaque soterocolombiano do Wagner Moura em Narcos, do Netflix.

Apesar de parecer, Espanhol e Português não são a mesma língua. Certa vez no estrangeiro, em Los Angeles, uma grande cidade mexicana no sul dos EUA, um tira perguntou de onde eu era: “Brazil!”, respondi. O oficial da LAPD devolveu: “O sotaque de vocês parece um espanhol bêbado”.

As nuances do português para sua versão sóbria fazem boleiros e repórteres boleiros passarem por situações inesquecíveis.

Quando estagiei no megaportal Terra, um colega quase publicou a incrível história sobre o time com 6 surdos que liderava o Campeonato Argentino. Por sorte, um estagiário resolveu consultar o Google Tradutor e descobriu que “zurdo” é canhoto em espanhol. A pauta caiu e a credibilidade permaneceu.

Outro caso aconteceu no começo dos anos 90, época em que a moda exigia cores berrantes, ombreiras e mullets, Don Diego Maradona curtia férias forçadas em Buenos Aires por terem encontrado urina em sua cocaína e aproveitava para matar o tempo assistindo jogos do Apertura e da Supercopa da Libertadores, uma competição caça-níquel da Traffic disputada apenas pelos clubes que já haviam conquistado o troféu mais cobiçado da América.

Em 1991, o Cruzeiro foi campeão da Supercopa após fazer 3 a 0 no River Plate. Nas quartas, o Palestra de BH meteu 4 no Nacional de Montevidéu com direito a hat-trick de Charles, o Baiano, o da polêmica na Copa América de 89. Maradona gostou tanto de ver o River perder, que achou que Charles estava no mesmo nível de Batistuta e declarou que com a saída do Batigol do Boca, ele mesmo, Maradona, colocaria a mão no bolso e contrataria o melhor atacante das Américas, no caso Charles, na opinião de Maradona, suspenso por uso de cocaína na época, para substituir o ídolo que fora para a Fiorentina. O craque argentino não só prometeu como cumpriu.

charles bocaA torcida lotou o Aeroparque Jorge Newbery para recepcionar o camisa 9 da aprazível Itapetinga, terra que também nos deu Agnelo Queiroz. Na chegada, um repórter de rádio perguntou: “Por lo que se conoce como ‘El Matador’?”. Charles escutou, deu aquela coçada na nuca e respondeu: “Porque soy conocido por matar la buela”.

Maradona teve de dar entrevistas para explicar que não havia contratado um assassino de avós, que foi um desencontro, que alguém se perdeu na tradução, ou no sotaque.

(Imagem do jornal argentino La Nacion)

Comentários

Comentários