O NASCIMENTO DE UM CRETINO

O NASCIMENTO DE UM CRETINO

Seu Jeferson era faxineiro daquele prédio há mais tempo do que qualquer morador pudesse lembrar. Navegou décadas e síndicos varrendo calçadas e esvaziando latas de lixo com a mais perfeita e discreta eficiência. Os grã-finos moradores do elegante condomínio da Delfim Moreira nunca conseguiram entender bem aquele sujeito. Seu Jeferson, era um senhor humilde de idade avançada, que apesar da subserviência inerente ao cargo, guardava uma certa altivez física nos modos. O uniforme cáqui com sandálias de couro, que mantinham permanentemente expostos os pés, calos, joanetes e cicatrizes, destoavam da maneira ágil e fluída com que se locomovia. Sempre ereto, sempre fluido, sempre exato.

Ocorre que aquele subalterno homem, dava lugar a outro completamente diferente, quando o trem de volta pra casa começava a cruzar os subúrbios da zona norte do Rio. Os vagões do parador eram sua cabine de telefone nova-iorquina. Ele entrava Seu Jefferson zelador, e ao som do metal batendo saía ex-craque de futebol, companheiro de Aroldo, Cané e Murilo no Olaria de 1962. Jeff, como era conhecido no IAPI da Penha, era um homem de muitas e importantes funções em sua comunidade. Cambone de Ebó do terreiro local, responsável pelos recolhes para enterros e festas, conselheiro das disputas entre vizinhos, era acima de tudo, o técnico da escolinha de futebol mais famosa da Penha. Incontáveis meninos foram aceitos em grandes clubes do Rio através de seus ensinamentos, e alguns até no estrangeiro foram parar, como ele sempre gostava de lembrar.

Certo dia Robertinho, filho do Dr. Roberto da cobertura, desceu para a portaria com uma Jabulani tilintando de nova debaixo do braço. Entre dribles imaginários em porteiros e babás e chutes tresloucados na parede da garagem, algo chamou a atenção do Seu Jeferson – ou melhor, de Jeff. Colocando a vassoura de lado, Jeferson começou pacientemente a dar conselhos ao garoto. Explicou-lhe a importância de como bater na bola, e de como se fazia se para dar a curva desejada numa cobrança de falta.

Quando começou a contar sobre um gol de falta que fez no Fluminense o treino foi interrompido pela voz do Dr. Roberto.

Robertinho, sobe para estudar.

Mas pai, hoje é sábado.

Não interessa, você precisa estudar se quer assumir meu escritório um dia, disse Dr. Roberto.

Estudar não é muito mais importante do que jogar bola, Seu Jeferson?

Endireitando-se no próprio corpo, Seu Jeferson disse simplesmente que não. Depois completou dizendo que nada é mais importante do que futebol!

É por isso o senhor sempre foi somente um faxineiro.

É por isso que seu filho nunca vai fazer um gol de falta no Maracanã, pensa Jeff, indo varrer a calçada de pedras portuguesas da portaria do edifício.

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