O jovem quer, mas não pode. O velho pode, mas não tem vontade

O jovem quer, mas não pode. O velho pode, mas não tem vontade

O Whatsapp é a rede social das histórias insólitas. Dia sim dia também surge um fato que se espalha mais rápido que o chute do Edmilson, o Canhão do Pantanal. Essa semana meu celular recebeu alguns prints da diarreia feminina que acabou com a balada sertaneja em Ribeirão Preto. A boataria diz que a menina foi drogada e acabou soltando o que não devia na pista de dança. Minha mulher tem uma explicação muito menos conspiratória: “Ela devia estar paquerando um menino a semana toda, na sexta ficou de cama, com virose, febre, vomitando etc, raciocinou: ‘Não vai ser uma caganeira que vai fazer eu perder o bofe’ e foi para a balada, mesmo sem a mínima condição de saúde para sair de casa”. Eu já fui jovem e sei como é. Não abria mão de balada. Aos 19 anos, durante uma crise brava de amigdalite, daquelas de fazer careta para engolir saliva, encarei uma noite regada a luz negra, gelo seco e música eletrônica. Já viajei sem ter onde dormir para ir à balada, adormeci no carro, acordei e encarei 200 km para voltar para casa.

“O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência”, observou Nelson Rodrigues. Com o tempo, nós passamos a evitar ciladas e selecionamos os eventos sociais. A mesma coisa acontece com o futebol. Depois de tanto sofrimento e massacre midiático sobre a violência nos estádios, visitas ao campo de jogo começam a rarear. Tenho um amigo fanático, que passou a selecionar tanto, mais tanto, que acabou por perder a maior vitória do seu time em muito tempo.

Domingo passado, Rio 450 anos, Botafogo e Flamengo se enfrentaram no Maracanã para celebrar o aniversário da cidade que os abriga. O time de Renê Simões começou 2015 assim como terminou 2014, desacreditado. O Flamengo, pelo contrário, é o time da moda na Cidade Maravilhosa. Há muita expectativa sobre o que Luxemburgo pode fazer com Everton, Marcelo e Canteros. PVC, o comentarista preferido de 9 entre 10 consumidores de jornalismo esportivo, cravou o Mengão como vencedor.

A desconfiança com Renê e sua turma era tanta, que meu amigo, botafoguense fanático, defensor das periódicas visitas ao estádio, faltou, mas na hora de tripudiar sobre os flamenguistas esqueceu e disse que foi.

Tão logo o jogo acabou, esse meu amigo tirou o telefone do gancho e discou para dois colegas de trabalho flamenguistas, ambos membros da Flapress. “Vocês são torcedores de merda, de sofá. Não interessa que trabalharam, tinham de ter ido ao Maracanã. Não tem desculpa!”, esbravejou. No dia seguinte, uma menina da redação comentou sobre um dos filmes do Oscar 2015. Antenado, nosso amigo botafoguense contou ter assistido a película no domingo, o mesmo do Clássico da Rivalidade. Intrigado, um dos flamenguistas sacaneados pela derrota e pela ausência perguntou: “Ué, você não foi ao jogo? Que horas foi ao Cinema?”. “Fui depois”, respondeu. A dúvida não se dissipou e começou a saraivada. “Com quem foi ao cinema? Que horas? Que sessão? Qual cinema? Sentou onde no Maracanã? Qual portão? Com quem foi ao jogo?”. Quando essa pergunta veio, meu amigo respondeu que havia ido com o companheiro de sempre, Lipe, o irmão. “Podem ligar e perguntar?”, garantiu. Mas nosso amigo não contava que um dos membros da Flapress é colega de pelada do irmão e tinha o contato no Whatsapp, a rede social das histórias insólitas. “Não, meu irmão não foi ao Maracanã, ele disse que ia ao cinema com a namorada. Até comentou que Boyhood é mesmo um filmaço”.

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