O HOMEM QUE DECIDIU PARAR

O HOMEM QUE DECIDIU PARAR

Era a quarta vez, em menos de quarenta e dois minutos, que ele cruzava a linha do gol para apanhar a bola nos fundos das redes. Na primeira, logo aos oito, depois de pegá-la com tanta raiva que suas unhas quase ficaram cravadas na indefesa e indefensável bola, arremessou-a com força em direção ao meio campo; na segunda, quando o cronômetro marcava vinte e dois de jogo, entregou-a a contragosto na mão do centroavante, que por sua vez enfiou a redonda sob a camisa para celebrar, pelo que parecia, a gravidez da esposa; na terceira, aos trinta e seis, deu um bico forte sem nenhuma direção a não ser o céu, descontando na pelota toda a inabilidade de seus zagueiros e torcendo, em segredo e em vão, para que ela não voltasse a cair naquele campo, naquela tarde; agora, na quarta vez em que cruzava a linha do gol para apanhar a bola, levantou as redes com o cuidado de uma mãe que levanta o cobertor para beijar os cabelos do filho adormecido, e se dispôs a fazer as pazes com ela. Se era hora de parar ou se era hora de insistir, ele não sabia. Mas estava na hora dele, Vitinho, camisa 1 do Abaeté, e a bola, de capotão, resolverem aquela velha rusga.

Vitinho há muito tempo odiava a profissão com a qual preenchia formulários de cadastro e documentos burocráticos: jogador de futebol. Pior: goleiro. G-O-L-E-I-R-O. Sua função diária, seu ganha-pão. Quando lia essa palavra ao lado do seu nome em algum jornal ou site, seu cérebro disparava uma corrente de vergonha que atravessava todo seu corpo em menos de um segundo e explodia em suas bochechas, provavelmente ruborizadas se Vitinho não fosse negro. Vitinho, goleiro. Podia ter sido qualquer outra coisa nessa vida: bancário, engenheiro, empresário, enfermeiro, veterinário, fazendeiro. Até jornalista podia ter sido, profissão que ele desprezava tanto quanto a sua. Vitinho, jornalista. Não seria tão ruim.

Mas quis a vida que ele não vestisse a camisa de empresa nenhuma. As suas, sempre com um escudo bordado no peito, foram sempre as número 1. Foi assim em quinze times ao longo dos mais de vinte anos de carreira. Desses quinze, sete eram grandes clubes. Número 1 em todos eles. É verdade que também vestiu a 12, mas isso foi raro: Vitinho era um exímio arqueiro. Ele era alto, tinha excelente envergadura, ágil sob as traves e versátil quando saía debaixo delas. No auge, seu nome foi cogitado para vestir a camisa da seleção?—?mas foi exatamente nessa época que Vitinho já não aguentava mais seu trabalho.

Sua descoberta com o futebol foi às avessas. Quando criança, Vitinho amava empinar pipa. Era o rei do cerol: ganhava as batalhas com qualquer moleque do bairro. Ele era alto e rápido para sua idade, e suas mãos eram tremendamente rápidas com as linhas. Um dia, e neste dia Vitinho contava onze anos, ele estava soltando pipa no campinho da vizinhança quando uma turma de garotos mais velhos o mandou sair; iam jogar bola. Sem tirar os olhos do céu, Vitinho se negou. No alto de seus quatorze anos, os garotos deram risada: afirmaram que ou ele saía ou tirariam ele à força. Vitinho riu: se encostassem nele, cortaria a cabeça deles com cerol durante o jogo. Vendo que o pirralho não titubeou em sua ameaça, os grandes propuseram uma aposta: Vitinho ia para o gol; eles bateriam dez pênaltis; se Vitinho agarrasse quatro, eles deixavam o campo; caso contrário, era o pirralho quem saía. Combinado.

Atrás do alambrado, um homem com a testa tão curtida quanto a pinga que tomava, assistia a injusta disputa infantil que acontecia em campo. Depois de um tempo, virou-se para o dono do bar: “Quantas dessa eu já tomei?”, perguntou. “Hoje é a primeira. Mas você tá me devendo as da semana passada.”, foi a resposta do dono atrás do bigode e do balcão. O homem ignorou. Estava espantado com aquele pentelho que havia acabado de pegar oito dos dez pênaltis de caras bem maiores que ele. Aquele pentelho era uma mina.

No dia seguinte, o homem da testa curtida se apresentou à casa dos pais de Vitinho trajando suas vestes mais elegantes. Apresentou-se como empresário?—?e aquele menino tinha futuro! Nos baixos de seus onze anos, Vitinho não teve?—?nem poderia ter?—?escolha: tornar-se goleiro profissional era a salvação de sua família. Ele sonhava mesmo em ser piloto.

Saiu de casa aos doze, assinou seu primeiro contrato aos treze, vestiu sua primeira camisa 1 aos quinze. Daí para frente não teve mais volta. Seria para sempre o que nunca desejou: Vitinho, goleiro.

Tudo isso passou pela mente de Vitinho na quarta vez, em menos de quarenta e dois minutos, que ele cruzava a linha do gol para apanhar a bola nos fundos das redes, mais de vinte anos depois daquela tarde em que foi descoberto empinando pipa. Estava na hora dele, Vitinho, camisa 1, e a bola, de capotão, resolverem aquela velha rusga, que se iniciou com uma contusão.

O auge da carreira indesejada chegou quando ele contava trinta e um anos. Foi nessa época que ele foi cotado para a seleção. Era indiscutivelmente o melhor goleiro em atividade na primeira divisão do campeonato brasileiro. O jogo de fato pouco valia; as posições já estavam estabelecidas na classificação. Porém, acostumado ao frio profissionalismo que seu desdém com a função exigia, Vitinho jogava com cem por cento de empenho. Em uma dividida desmedida, o goleiro quebrou dois dedos do pé esquerdo, pé que fazia base para seu chute e do qual conseguia maior impulsão. Saiu de maca.

No dia seguinte, os médicos do clube foram categóricos: com aquela idade, a recuperação já não era tão rápida quanto no vinte e poucos; seria necessário reaprender a usar aquele pé; readaptá-lo, com menos força, ao trabalho; recomeçar, do zero. Se quisesse insistir, teria um longo e árduo trabalho pela frente, trabalho que consumiria um tempo que ele não tinha mais. Ao invés disso, os médicos recomendavam parar.

O pobre Vitinho se revoltou. A bola havia definido seu destino?—?e quanto a isso não tinha nada o que pudesse ser feito. Foi a bola quem não o deixou ser o Vitinho, bancário; ou o Vitinho, engenheiro; ou o pueril Vitinho, piloto. Mas não seria ela, de novo, a maldita bola, que decidiria os rumos de vida.

Em seis meses, Vitinho foi vendido a um time menor. Em um ano, jogava a segunda divisão. Depois de três temporadas, foi dispensado por um time da terceira. Hoje estava no Abaeté.

O primeiro tempo se encerrou sem acréscimos e sem que Vitinho cruzasse a linha do gol pela quinta vez. No vestiário, o goleiro pediu para um companheiro dar alguns chutes, “para não esfriar”, mentiu. Depois daquela curta sessão, ele finalmente entendeu. No último chute disparado pelo companheiro de time, Vitinho não agarrou a bola. Pela primeira vez em sua vida, desde aquela tarde em que foi descoberto empinando pipa, ele a abraçou.

Na etapa final daquela partida, Vitinho fez mais seis defesas: todas encaixadas em um abraço fraterno. Estavam em paz um com o outro: a bola, de capotão, e Vitinho, o camisa 1 do Abaeté?—?o último clube em que jogou.

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