O estranho caso da corrupção do bem

O estranho caso da corrupção do bem

Primeiramente, desculpa qualquer coisa. Na semana passada, recebi uma enxurrada de críticas dos 8 leitores do 433 sobre uma piada política na epígrafe do texto. A oposição me chamou de Juca Kfouri. Os petistas disseram que sou coxinha. Senti-me insultado como humorista. Por isso, para evitar a debandada, não mais falarei de política partidária no 433 e desta vez escolhi um tema menos polêmico, a corrupção na saúde pública brasileira.

No dia 16 de dezembro de 1989, o septuagenário Seu Nelito caiu e quebrou a bacia, mais ou menos às 17h05, logo depois do gol de Sorato, na vitória do Vasco sobre o São Paulo, na final do Brasileirão de 1989. Como era época de transição do INAMPS para o SUS, o veterano cruzmaltino recebeu um tratamento emergencial e foi colocado numa lista de espera para cirurgia.

Com o tempo passando e as dores aumentando, Seu Nelito começou a fazer vigília no hospital Souza Aguiar, na região central do Rio de Janeiro. Passou um campeonato, dois e nada de seu nome encabeçar a lista da operação. Para piorar a dor, seu Vascão, dono da melhor campanha no Brasileirão de 92, com Bebeto e Edmundo no comando de ataque, fraquejou na reta final, meteu os pés pelas mãos e acabou ajudando o Flamengo a decidir o título contra o Botafogo.

Para esquecer a dor de cabeça do futebol, Seu Nelito aproveitou o clima de feriado pela final no Maracanã e seguiu esperançoso para o hospital. A calmaria foi rompida pelo som e a fúria dos flamenguistas uniformizados que não paravam de chegar ao Souza Aguiar. Um trecho de 12 metros da grade de proteção da arquibancada do Maracanã, atrás de uma das balizas, no setor da torcida rubro-negra, cedeu sob o peso da multidão, impulsionando a queda de cerca de 40 pessoas, numa altura de quatro metros, sobre as cadeiras azuis. O acidente provocou a morte de quatro pessoas e ferimentos em outras 88, muitas em estado grave.

Com o pronto socorro do Souza Aguiar mais lotado que a geral e a imprensa pressionando como o Barcelona de Guardiola, o prefeito Marcello Alencar telefonou para o secretário de Esportes do Governo Federal, Bernard Rasjzman, o presidente da Suderj, Márcio Braga, e para o governador Leonel Brizola em busca de verba emergencial para evitar que a tragédia se tornasse uma catástrofe.

Com o sinal verde, o prefeito foi para frente da câmera da Globo e passou a autorizar a transferência das vítimas para hospitais particulares. No meio da confusão, ao ser informado da história de Seu Nelito, o prefeito não teve dúvida e ordenou: “Enfia o velhinho numa camisa do Flamengo e despacha para o São Vicente de Paulo”.

*Seu Nelito tem 96 anos, mora em Benfica, zona norte do Rio, não sente dor nenhuma no quadril e jura que não comemorou o gol de Júnior naquele dia.

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