O ELUSIVO

O ELUSIVO

Willie_PepOU COMO FILOSOFAR COM OS PUNHOS

No passado, quer dizer, no passado recente, um especialista em algum tema específico era algo muito valioso. Tempos de recursos escassos, onde era muito mais comum o uso da conjunção coordenativa “ou” do que “e”. Tempos da escolha de Sofia entre o novo LP duplo dos Dire Straits ou dinheiro para comprar o ingresso para o próximo Fla x Flu. Nessa época distante era tênis Pé do Atleta ou moletom da Company, Bob´s ou fliperama depois do cinema. Raramente os dois, nunca tudo. Por isso mesmo, um amigo (algumas vezes um irmão mais velho) que realmente entendesse de rock progressivo era um ativo de valor incalculável. A lista de assuntos não acessíveis através das fontes mais confiáveis da época era simplesmente imensa. Além dos óbvios sexo, drogas e rock´n´roll não era fácil achar alguém que conhecesse muito de surf, skate ou videogame. E a nebulosidade não era restrita aos temas mais contemporâneos, por assim dizer. Se você quisesse realmente entender de Boxe, e não tivesse revistas estrangeiras para recorrer, não iria ajudar muito apelar para pais ou programas de TV. Na verdade nem a Enciclopédia Britânica, que tudo sabia, te ajudaria num caso assim. As informações eram tão difíceis de serem encontradas que muitas vezes fatos passavam por lenda, e pior ainda, lendas eram alardeadas com a certeza feérica dos messias.

Foi exatamente de um desses improváveis messias que ouvi a primeira vez o nome Willie Pep. No centro do Rio, numa loja de artigos de artes marciais na Rua 13 de Maio. Sua história me foi contada quase que sussurrada pelo gerente da tal loja. O boxeador americano que lutou nos meados do século XX, nascido como Gulielmo Papaleo, tinha o impressionante cartel de 241 lutas. Foram 229 vitórias, sendo apenas 65 pela via rápida, 11 derrotas e um empate. Quase que imediatamente me apaixonei pelo boxeador conhecido muito mais pela capacidade de evadir do que de derrubar pessoas. Reza uma das muitas lendas a seu respeito que ele teria vencido um round sem desferir um único golpe, valendo-se apenas de sua capacidade de esquiva e jogo de pernas. (Vale conferir nesse primoroso vídeo da época http://www.youtube.com/watch?v=X9aEURJrgpw ). Talvez isso tenha lhe rendido o apelido que carregou por toda vida: Will-o´-the-wisp, que Numa tradução livre significa algo como luzes fantasmagóricas vistas por viajantes noturnos.

Sim, mergulhar no universo de Willie Pep é como que caminhar num pântano coberto pelo fog. Somos retidos por sua trajetória brilhante na mesma proporção que somos confundidos pela névoa das lendas que o cercam. O peso-pena que foi campeão mundial e teve seu nome inscrito no hall da fama do Boxe lutou nada menos do que 1.956 rounds contra mais de duas centenas de adversários. Gente como Sugar Ray Robinson e Sandy Sanddler, este último numa das muitas lutas que ficaram conhecidas como a maior luta de todos os tempos. ( http://www.youtube.com/watch?v=y8oq7c8FajY ). No caso de Ray Robinson além de uma famosa luta de exibição em 1965 ( http://www.youtube.com/watch?v=iYlrqhQJ0dY ) os dois ainda travaram um outro combate como amadores, e apesar da grande diferença de peso a favor do adversário Pep perdeu apenas por pontos. Depois da Luta ele confidenciou que só descobriu em cima do ringue com quem iria de fato lutar. Outros tempos, outras lendas.

Para mim, seu estilo de lutar sem lutar, de ser elusivo e de ganhar lutas mesmo não sendo um grande pegador é uma ode ao sujeito comum, uma declaração de princípios sobre nunca desistir. Seguir lutando enquanto for possível é a metáfora perfeita sobre a vida. Como não amar alguém que filosofava com as luvas, e resumiu isso em sua frase definitiva: “aquele que bate e sai vive para lutar outro dia”

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