O doloroso fim da infância

O doloroso fim da infância

“Menor que mata, deve morrer”, disse um amigo numa discussão em um grupo de Whatsapp sobre o assassinato a facadas do médico Jaime Gold, de 57 anos, na Lagoa Rodrigo de Freitas, área nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro, cometido por dois menores. Um gaiato aproveitou os ânimos acirrados e ironizou: “Depois de matar, tem de ter o corpo arrastado por um cavalo e, depois, pendurado em frente o castelo do senhor feudal”. Sinceramente, não tenho uma ideia formada sobre a redução da maioridade penal. Mas, como gosto de discordar, talvez por uma questão astrológica tendo a ir sempre contra a maioria, seja ela qual for. Apenas pelo prazer de ser do contra.

Quando era criança pequena lá em Caçapava, já engatinhava no hobby de discordar por discordar. Ainda bem que chatice não é crime e 18 anos já era a idade limite para fazer merda e ficar solto pelo mundo. Nessa mesma época, meus passatempos preferidos eram colecionar cards do calcio italiano, botões de times gringos e decorar as listas de campeões e vice dos torneios europeus impressas nas edições de campeões da Placar.

Metódico, eu criava listas baseadas em meus consumos culturais, como os cards, os botões e as revistas da finada editora Abril. Listas de tudo. Melhores clubes do mundo com uniforme verde. Times de países da cortina de ferro semifinalistas de competições europeias. Times com mais craques. Campeões da Copa dos Campeões em anos que nasceram meus familiares. Nessa lista, um time chamava minha atenção, o Hamburgo, pela referência gastronômica, lógico e por ser o vencedor da mãe da Champions no ano em que eu nasci, 1983.

Outro dia, passei o olho nas tabelas dos campeonatos europeus da Edição de Esportes do Estadão de segunda-feira e me dei conta que o único incaível do futebol campeão do mundo está prestes a conhecer as agruras da segundona. No sábado passado, acordei, mal abri os olhos, procurei o controle para ligar a TV e acompanhar a derradeira rodada da Bundesliga. O time da maior cidade portuária alemã precisava da vitória e de uma combinação de resultados para conseguir uma vaga nos playoffs do rebaixamento. Na Alemanha, o terceiro pior da série A, disputa a vaga na elite com o terceiro pior da B. Deu certo, o Hamburgo, com Olic e van der Vaart, venceu o Schalke 04 por 2 a 0 e enfrentará o Karlsruhe na repescagem.

Aliviado com a possibilidade de permanência do time da minha infância, que será disputada nos dias 28 de maio e 1 de junho, passei a olhar com mais atenção para as classificações das ligas europeias. Com isso, percebi que vários times clássicos da minha vida estão flertando com o rebaixamento ou com posições estranhas à suas histórias, como o Milan em 10º, Parma rebaixado, Udinese, time da cidade sede dos jogos do grupo E da Copa de 90, a primeira Copa da minha vida, quase na zona da degola. O quase rebaixado La Coruña, time que pagou uma pequena fortuna para levar do Vasco, em 92, o Bebeto, então melhor jogador em atividade no Brasil, e depois ao Djalminha e Rivaldo, craques da terceira Academia do Palmeiras. O Leeds United e o Nottingham Forest imortalizados pela época de ouro de Brian Clough e agora penando longe dos holofotes. Todos esses times agora são mortos vivos. Moribundos vagando até que um Samwell Tarly da vida acerte uma obsidiana de dragão e acabe com o sofrimento.

O mundo real é cruel com os que vivem de fantasia. A situação desses times e a possibilidade do Golden State Warriors, um saco de pancadas da NBA dos anos 90, ir para a final mostra que todas as crianças, independente da idade que tenham, uma hora devem crescer e entender que existem consequências para suas escolhas.

*A imagem é um relógio no estádio do Hamburgo que mostra o tempo do clube na primeira divisão e foi tweetada pelo perfil oficial do clube após o alívio da ida para a repescagem.

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