O BOMBEIRO E O PAPAI NOEL

O BOMBEIRO E O PAPAI NOEL

O BOMBEIRO E O PAPAI NOEL

O PAPAI NOEL

Já era tradição que, no último jogo da temporada regular do campeonato nacional de futebol americano, um membro da velha guarda da família Olivo comparecesse ao estádio vestido de Papai Noel. Por uma dessas peças que o Acaso (ou o Destino, se o leitor preferir) prega nos desavisados, naquele 1968 quem teve que cumprir a sina foi o jovem Frank, então com 19 anos. Rotundo desde sempre, a indumentária coube-lhe perfeitamente. Chegou animado ao estádio, apesar do frio polar e vento cortante daquele inverno na Filadélfia, e do fato que seu time venerado estivesse melancolicamente concluindo uma das piores campanhas de sua história: magras duas vitórias e um empate, depois de onze derrotas seguidas.

Era tradição também que, no intervalo do último jogo dos Eagles, acontecesse uma espetáculo de Natal, com direito a Papai Noel de verdade. Diferente do Santa Olivo, o bom velhinho oficial era um profissional, daqueles que cultivam a longa barba o ano inteiro para poder ganhar uma grana extra na temporada de compras compulsivas. Acontece que o Acaso não brinca em serviço – ou melhor, brinca o tempo todo com as coincidências que promove – e naquele ano o profissional escalado para balançar a pança e dar aquela bizarra gargalhada característica ficou impossibilitado de chegar a tempo, por conta da interdição de estradas e linhas de ferro cobertas de montes de neve. Diante do WO do Papai Noel oficial, alguém da organização avistou Frank na plateia e teve a providencial ideia de chamá-lo para substituir. Ele topou.

Orgulhoso, o risonho Frank entrou no campo acenando para a plateia, que não engoliu aquele Papai Noel fajuto. Não se sabe se apenas pela campanha vergonhosa, mas também pelo frio que gelava a alma, o estádio iniciou uma portentosa vaia. Enquanto o inseguro Frank debatia consigo: “Essa vaia é pra mim? É a mim que estão vaiando?!”, um torcedor mais indignado e audaz fez uma bola de neve e arremessou contra o pobre Santa falsificado. Diante do ataque, Frank ainda se aproximou da beira do campo e ameaçou seu algoz com a promessa de não lhe dar presente algum no dia 25. Antes que concluísse o impropério, o humano, demasiado humano, comportamento de manada fez com que uma avalanche de bolas de neve vindas de todos os lados do estádio acertassem o coitado do obeso expiatório.

O linchamento gelado gerou debates acalorados por todo o país, versando desde a óbvia revolta pela gambiarra que encarnava a má-gestão, até a histórica fama da “cidade do amor fraternal”: Philly ama ou odeia, sem meios-termos. Diante da repercussão na mídia, Frank foi convidado no ano seguinte para ser o Papai Noel oficial. Declinou do convite, alegando que já tinha vivido seus 15 minutos de fama. De tempos em tempos, algum repórter batia à sua porta para relembrar o fato. Deu algumas entrevistas esporádicas. Nunca mais um Olivo foi ao estádio vestido de Papai Noel. Frank Olivo morreu no início de 2015, aos 66 anos.

O BOMBEIRO

Eddie Anzalone, bombeiro de profissão, era o torcedor-símbolo do tradicional time de futebol americano de Nova Iorque-Nova Jérsei. Era ele quem comandava, montado nos ombros do irmão, as dezenas de milhares de vozes que entoavam, a cada jogo, o grito de guerra do seu time: “J-E-T-S… Jets! Jets! Jets!”. Desde 1986, era nele que a câmera focalizava nos momentos mais efervescentes do jogo. Sua fama era tamanha, que foi eternizado no “Pro Football Hall of Fame”.

Até o fatídico Dia de Ação de Graças – que nos EUA tem mais importância do que o Natal – de 2012, em que algo semelhante a um 7×1 desabou sobre os seus ombros e de todos os torcedores apaixonados do alviverde. Nessa partida contra os New England Patriots, ocorreria uma jogada que entrou para a história do esporte como talvez a mais constrangedora de todos os tempos. O “Butt Fumble”, como ficou eternizada a trapalhada assistida ao vivo por 79 mil presentes ao MetLife Stadium e mais de 20 milhões de telespectadores, foi um encontrão de um jogador do Jets contra a bunda do colega de time, fazendo com que perdessem a bola para o time adversário, que marcou um touchdown (que mais ou menos equivale ao gol no futebol do resto do mundo). Pior do que isso, essa cena ridícula foi apenas a epítome de um segundo quarto desastroso: em 15 minutos, 12 dos quais o próprio Jets teve a posse de bola, o placar foi de 35 x 3 para o adversário (algo como um 5 x 0 no nosso futebol), resultado de um apagão em que conseguiram perder a bola três vezes em apenas 52 segundos – culminando em três touchdowns. Para que se tenha uma ideia do vexame, acontecem em média apenas 2.3 perdas de bola (fumble) por partida na NFL, sendo que apenas em 1.2 o time que deixou a bola saltitando não conseguiu recuperá-la.

No final do primeiro tempo, Fireman Ed , como era conhecido, saiu do estádio arrasado, apagou sua conta no Twitter (sim, ao longo do tempo Fireman Ed atualizara-se na paixão organizada pelo Jets através das mídias sociais), logo após dar sua última manifestação pública: “não sou mais um mascote”.

Depois da aposentadoria precoce de Fireman Ed, os Jets nunca mais se classificaram para as finais do campeonato. Mesmo com campanhas para seu retorno, sua aposentadoria parece ter sido definitiva. Com exceção do primeiro jogo da atual temporada, em que Ed atendeu aos apelos do clube e fez uma concessão, cujos motivos explicou em carta aberta, ressaltando que a paixão pelos Jets jamais esmorecera.

MORAL DA HISTÓRIA

O autor deste texto poderia dizer que o que junta esses dois personagens é o mero fato de ter ido ao MetLife Stadium no domingo e ter assistido exatamente à partida em que o Philadelphia Eagles bateu o NY Jets por 24 x 17 (até quase metade do jogo, o resultado era 24 x 0 e apontava para uma derrota vergonhosa) diante de um estádio lotado – e os estádios de futebol americano estão sempre lotados. Poderia também ligar o fato de o papa Francisco, um apaixonado pelo outro futebol (aquele que não mais arrasta multidões aos estádios no Brasil), ter arrastado multidões na Filadélfia e em Nova Iorque nos últimos dias. Mas no fundo o que tirou mesmo a inércia dos dedos, sempre preguiçosos em escrever, foi a notícia da morte de Clóvis Acosta Fernandes, o Gaúcho da Copa, famoso torcedor-símbolo da Seleção Brasileira de Futebol, presente a todas as Copas desde 1990, sempre agarrado à taça, invariavelmente chorando, de alegria ou de tristeza.

O time forja o torcedor, que engrandece o time, que magnetiza o torcedor, que espelha o time. E o futebol brasileiro morreu. RIP

 

 

[Fotos: AP, usatoday.com, O Globo]

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