O badminton do Piauí quer ser o Brasil que dá certo

O badminton do Piauí quer ser o Brasil que dá certo

“O Nordeste é a China Brasileira”, afirmou um alto executivo da DHL (Correio Alemão e um dos gigantes da logística mundial) no auge da crise financeira de 2008, durante um evento de transporte no final daquele ano. Eu estava em meus últimos meses como repórter-estagiário de comércio marítimo e essa frase permaneceu martelando na minha cabeça por um bom tempo.

Até que há alguns dias ela voltou a martelar. Eu falava com atletas de badminton reunidos no Campo dos Afonsos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para a disputa de um evento teste para os Jogos Olímpicos de 2016 e um deles rebateu minhas afirmações de que o esporte da peteca era elitista e estava restrito aos clubes. “Aqui, no Sul-Sudeste, o badminton é disputado nos clubes, mas no Piauí ele está em todas as escolas”.

Sem palavras, passei a ouvir, que é o que deveria ter feito desde o começo. Ao chegar em casa, dei aquela googada pesada nos termos “badminton piaui”, badminton+piaui. Surpresa maior que descobrir que as crianças carentes de Teresina são as esperanças do badminton no Brasil, foi constatar que inúmeros sites já haviam “revelado” o investimento piauiense no badminton menino, no badminton moleque-maroto.

Metade dos rankings do badminton de base, até 19 anos, é liderada por conterrâneos de Raica Oliveira. Segundo o diretor de comunicação da Confederação Brasileira, Edésio Fernandes, tudo começou em 2005, quando Francisco Ferraz, de 36 anos, presidente da entidade desde 2012, desembarcou em Teresina com uma peteca e duas raquetes. Ele é o Charles Miller do esporte bretão deles.

A historiografia do esporte conta que os chineses começaram a dar raquetadas nas petecas há mais de 2 mil anos. Seus vizinhos, os indianos, acharam interessante o passatempo e o assimilaram ao dia-a-dia. No país das vacas sagradas, o oitavo duque de Beaufort, um inglês com nome de quem ostentava um bigode de Sam Elliott, conheceu o jogo, o levou para seu país e, por causa, da sua propriedade, Badminton House, o nomeou.

Na história dos Jogos Olímpicos, o badminton já distribuiu 91 medalhas, a China ficou com 38, ou 41%, sendo 16 de ouro, 55% das medalhas douradas. Nascidos no continente americano sequer subiram ao pódio do esporte.

Talvez a falta de medalhas seja reflexo dos poucos recursos. Atualmente a Confederação recebe R$ 2 milhões por ano repassados pelo COB e não tem nenhum patrocinador, mesmo assim mantém duas sedes, uma em Campinas e outra em Teresina, catorze funcionários, custeia viagens de atletas para treinarem e competirem com malaios, tailandeses e taiwaneses e ainda ensina o esporte para 900 crianças carentes da Mesopotâmia brasileira.

Todas essas informações eu descobri em minha googada nervosa, chequei com a confederação e com a assessoria do Ministério do Esporte. Andreza Miranda, de 18 anos, e Lucas Alves, de 19, passaram três meses treinando na Malásia. O COI premiou o projeto Jovens Talentos de Badminton por beneficiar crianças carentes. Tudo isso feito com 30% do que a Confederação Brasileira de Vôlei pagou para um alto funcionário da CBV que mantinha uma empresa de fachada exclusivamente para desviar dinheiro de patrocínios da entidade, conforme mostrou a série de reportagens do Lucio de Castro.

Se o badminton fosse candidato nessa eleição, eu votaria nele. Afinal, o vôlei, que é o queridinho dos baba ovo que criticam as mazelas do futebol, é rotulado como o “Brasil que dá certo”, mas adora eternizar dirigentes, recebe um caminhão de dinheiro de estatais, se vê em um escândalo de desvio de dinheiro de patrocínio, a torcida só vai ao ginásio se ganha jabá e o ingresso é de graça e ainda há o caso nebuloso da entrega de jogo para garantir caminho mais fácil.

O badminton representa o contrário dos vícios da cartolagem brasileira. O dinheiro público vai para o investimento na base, o esporte está na escola, o cartola mor ascendeu ao poder nesta década, o foco é em um estado carente de alto rendimento e, para acabar, o plano é conquistar uma medalha em 2020. O Piauí quer ser a China brasileira.

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