Mensagem do fundador do Fluminense, Oscar Cox (psicografada por Marcos Caetano)

Mensagem do fundador do Fluminense, Oscar Cox (psicografada por Marcos Caetano)

Mensagem do fundador do Fluminense, Oscar Cox

(psicografada por Marcos Caetano)

Ilustríssimos sócios e torcedores do Fluminense Foot-Ball Club,

É com imensas alegrias que, aqui no plano espiritual, recebi a alvissareira notícia a respeito da inauguração de um busto de bronze em minha homenagem no solo sagrado da sede social de nosso clube, nas Laranjeiras. A humildade e o recato obrigam-me a, mui respeitosamente, esclarecer que não me considero merecedor de tão significativa honraria. Outrossim, cumpre esclarecer que estarei disposto a aceitá-la, desde que sob a ressalva de isso não venha a denotar qualquer reconhecimento de méritos individuais – mas sim como uma celebração da formidável força da natureza que eu e um seleto grupo de amigos colocamos em marcha naquele distante 21 de julho de 1902.

Recordo-me como se fosse hoje da singeleza da reunião no casarão da Rua Marquês de Abrantes número 51, residência do companheiro Horácio da Costa Santos. Presidida pelo meu grande amigo Manoel Rios e secretariada por Américo da Silva Couto – nosso primeiro goal keeper – e por mim, o encontro de um grupo de vinte varões deliberou sobre a fundação do nosso glorioso Fluminense Foot-Ball Club (peço vênia aos ilustríssimos torcedores para adotar a grafia da palavra foot-ball consoante com a norma culta dos meus tempos de atleta). Além dos já citados amigos, faço questão de fazer menção nominal aos demais fundadores da instituição: Mário Rocha, Walter Schuback, Félix Frias, Mário Frias, Heráclito de Vasconcelos, João Carlos de Mello, Domingos Moitinho, Luís da Nóbrega Júnior, Arthur Gibbons, Virgílio Leite, Eurico de Moraes, Victor Etchegaray, A. C. Mascarenhas, Álvaro Drolhe da Costa, Júlio de Moraes e A. H. Roberts. Em votação democrática, esse ilustre grupo de tricolores eternos achou por bem apontar-me como o primeiro presidente de nossa amada instituição. Dos meus primeiros passos na luminosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde nasci em 20 de janeiro de 1880, até fechar os olhos em Clermont-Ferrand, na França, em 6 de outubro de 1931, nada do que fiz ou disse foi tão significativo quanto a aceitação, na flor dos meus 22 anos, da responsabilidade que me foi oferecida por aqueles dezenove praças. É em nome deles que aceito a homenagem que o clube me fará no sábado vindouro.

Não obstante a leveza condizente com o momento de celebração e agradecimento, como fundador e primeiro presidente do Fluminense Foot-Ball Club, entidade cuja história é um verdadeiro hino à fidalguia e ao espírito esportivo, eu não poderia furtar-me de expressar imenso descontentamento diante de um ultrajante fato que chegou ao meu conhecimento nos últimos dias. Ele diz respeito à delicada situação de uma agremiação coirmã: o Clube de Regatas Vasco da Gama. Muito embora eu jamais tenha tido a oportunidade de medir forças em um campo de foot-ball com a referida agremiação, uma vez que quando ela deu início à pratica desse desporto eu já havia partido para a Inglaterra, preciso reconhecer que, como clube de regatas, o Vasco da Gama existe desde 1898. Antes, portanto, da nossa fundação. Que os mais jovens não se iludam: houve um tempo em que as regatas eram mais populares no Rio de Janeiro do que o foot-ball, do qual fomos pioneiros. A tradição dos luso-brasileiros na modalidade, que acabou chegando também aos fields, em 1916, faz do clube que os patrícios portugueses fundaram com o mesmo amor que dedicamos ao Fluminense uma entidade assaz respeitável – e que como tal merece ser tratada. Conto tudo isso para escancarar a minha revolta diante da notícia de que pessoas que se dizem tricolores estariam instando nossos jogadores a entregar um match contra uma agremiação do sul do país, apenas e tão somente para causar o rebaixamento dos nossos rivais cariocas à segunda divisão do campeonato.

Serei o mais direto possível: se nos meus tempos de presidente alguém no clube ousasse levantar a voz para defender tamanha sandice, o expulsaria a pontapés do sacrossanto quadro de sócios do clube que fundei. O Fluminense nunca acolheu, não acolhe e jamais acolherá canalhas. Ao menos no meu tempo, considerávamos indivíduos capazes de pregar toda e qualquer prática antidesportiva como indiscutíveis e definitivos canalhas. Não importa o que outras agremiações tenham dito a nosso respeito, não importa o mal que elas eventualmente tenham nos causado, não importa o caráter de seus dirigentes: o Fluminense que eu e meus dezenove companheiros de luta fundamos é um clube que sempre – de 1902 até a consumação dos tempos – entrará em campo apenas e tão somente para vencer.

Honra não se negocia. Adversários não são inimigos. O desporto existe para promover a competição sadia e o triunfo do mérito. O Fluminense está acima de toda e qualquer vaidade ou rivalidade. Essas crenças norteavam o grupo que foi a chama original do imenso farol moral que viria a ser o nosso Fluminense. E por isso peço-vos, encarecidamente: se houver em nossos quadros atuais uma única pessoa que não compactue desses valores – inegociáveis valores! –, por favor, não exponham o meu busto na sede das Laranjeiras. Por Deus, se não podem livrar meu espírito dessa indizível vergonha, que ao menos não a eternizem numa imagem em bronze.

No próximo domingo, como faço dia após dia desde aquele longínquo 21 de julho de 1902, eu estarei torcendo pela vitória do Fluminense. Porque minha alma eterna é simplesmente incapaz de lutar por outra coisa. E espero que todos vocês estejam, como sempre, ao meu lado.

Glória eterna ao Fluminense Foot-Ball Club e sua honra inegociável.

Saudações tricolores,

Oscar Alfredo Sebastião Cox
Presidente do Fluminense Foot-Ball Club (1902-1903)

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