Mães da Ilha do Retiro

Mães da Ilha do Retiro

Embora estilisticamente questionáveis, os clichês, assim como os trocadilhos, sao perdoáveis quando perpetrados conscientemente. Quando acompanhados do aviso “atenção, clichê adiante!”, tornam-se então uma ferramenta de trabalho legítima, a serviço da clareza e completeza da comunicação.

Atenção: clichê adiante! Há muito se sabe, ou pelo menos se desconfia, do poder das mulheres na condução dos destinos da humanidade e na melhoria do mundo. Muito tempo mesmo: a comédia clássica de Aristófanes intitulada Lisístrata (411 a.C) trata da greve de sexo que esposas e amantes resolveram fazer para exigir que os homens pusessem fim à Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta. Se essa obra já foi bandeira das feministas do passado, por mostrar o poder que as mulheres tem ao se organizarem, atualmente pode ser vista como sexista e preconceituosa, por reduzirem seu papel a meras ferramentas sexuais. Então, para evitar polêmicas desnecessárias, recorramos a um exemplo não ficcional e contemporâneo: as Madres de Plaza de Mayo, aquelas mulheres corajosas que enfrentaram a terrível ditadura argentina nos anos de chumbo – inclusive durante a Copa de 78, em que os olhos e câmeras do mundo estavam presentes na capital portenha -, exigindo o paradeiro dos filhos desaparecidos.

Coragem tiveram também as trinta mães de torcedores em Recife no dia 8 de fevereiro passado, que foram treinadas como seguranças da Arena Pernambuco. Na semana anterior, a cidade tinha sido palco de briga de torcidas – em um estado onde uniformes de torcidas são proibidos, e mesmo assim não se consegue conter a sanha de bestas-feras travestidos de torcedores. Ao chegarem lá e se depararem com suas mães como seguranças, muitos torcedores se emocionaram, abraçando suas mães. Outros se senbilizaram com a ação e resultado foi um sucesso: um excepcional domingo de paz.

Evidentemente que essa iniciativa, batizada de “Security Moms” (“Mães Seguranças”) , não é uma panaceia, assim como não se deve esperar que a repetição da ação tenha o mesmo impacto inicial, mas podemos ressaltar aqui três pontos:

1) Os times de futebol podem e devem, sim, contribuir para amenizar esse problema crônico. Essa iniciativa foi promovida pelo Sport. Podiam nao ter feito nada, mas fizeram. Salvaram um domingo, sabe-se lá se não salvaram uma ou mais vidas. Chamaram atenção para o problema. De quebra, geraram mídia espontânea e simpatia para o rubronegro pernambucano. Ponto para o clube.

2) Numa época em que agências de publicidade estão cada vez mais perdidas entre o extremo de apenas bovinamente acatar o que os clientes corporativos pedem – sem nenhuma margem para inovação e seus inexoráveis riscos – e o extremo de radicalizar tentando transformar tudo em “viral” – e normalmente carecendo do mais elementar bom senso (ver como exemplo a recente ação putativa de gosto duvidoso de um bloco de carnaval) – chega a ser auspicioso ver que essa ação foi criada e desenvolvida pela Ogilvy. Buscar uma sociedade melhor é responsabilidade de todos. Se essa responsabilidade também gerar dividendos para quem a promove, não há problema nenhum nisso: ganham todos. E boas ideias merecem atenção, nasceram para isso. Ponto para a agência.

3) Chamar de “bestas-feras”, como fiz acima, aos que se digladiam nos estádios e seus entornos é de um escapismo reducionista nada efetivo. Imaginar que os brigões são todos marginais (no sentido mesmo de que vivem à margem da sociedade) dificulta o entendimento do fenômeno da violência e portanto das possíveis soluções. Os que brigam muito provavelmente têm mãe e irmãos, alguns até mesmo devem ter pai (algo raro no Brasil), filhos e namorada(s), podem ter emprego e frequentar alguma igreja; fazem parte da sociedade, enfim. O que os motiva pode ser uma intrincada teia de razões psicológicas, sociais, econômicas e de grupo, da mesma forma que tabagismo, indumentária ou mesmo “epidemias de suicídio”, como bem destrincha Malcolm Gladwell no livro “O Ponto da Virada“. Nesse livro, o autor advoga que pequenas mudanças podem fazer grandes diferenças. Em outras palavras, soluções simples podem resolver problemas complexos – o que contraria a máxima atribuída a H. L. Mencken: “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.”. A verdade é que não se sabe quem está com a razão. Mas debater, saindo da inação e testando soluções, talvez seja a única maneira de curar essa e outras desgraças do Brasil atual. Assim aumentamos a chance de vivermos melhor do que antes. E se isso acontecer: ponto para a sociedade.

 

 

 

 

[Foto obtida na página: http://grandesnomesdapropaganda.com.br/destaques/ogilvy-assina-acao-security-moms-para-o-sport/)

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