LONG SHOT: QUANDO GOLS EXPLICAM HOMICÍDIOS

LONG SHOT: QUANDO GOLS EXPLICAM HOMICÍDIOS

LONG SHOT

Em inglês, a expressão “long shot” se refere a algo que é pouco provável que ocorra, mas mesmo assim talvez valha a pena arriscar. Ou a uma ilação entre dois fatos aparentemente tão desconexos que um não poderia explicar o outro nem vice-versa. Fãs de Sherlock Holmes ou de séries americanas de investigação policial ou médica já devem estar acostumados a ouvir essa expressão sempre que alguém quer refutar uma hipótese que, embora improvável, ligaria todos os fatos e variáveis envolvidos de maneira irresistível.

Para sustentar um long shot, nada melhor do que as estatísticas. A “matemágica” exerce tal fascínio nas pessoas, que somos tentados a crer naquela teoria estranha, mesmo quando contra-intuitiva. Não significa que o que não bate com o senso comum esteja necessariamente errado. Ao contrário. Não é à toa que o tema “behavioral economics” tem se tornado “hype” tanto no mundo acadêmico quanto no editorial. Como atestam o Nobel de Economia de 2002 dado a Daniel Kahneman (um psicólogo), por ter investigado os mecanismos de tomada de decisão do homo sapiens, assim como os livros de Malcolm Gladwell, Dan Ariely ou da série Freakonomics, que mostram como os números podem provar que a realidade geralmente é bem discrepante do saber popular.

Assim, as estatísticas podem tanto lançar luz de realidade, quanto aspergir fumaça de verossimilhança enganadora. Alguns destes casos são evidentemente esdrúxulos; outros, insidiosamente críveis. Eis alguns exemplos:

Menos gols, menos homicídios

Taxa de homicídios e número de gols não têm nada a ver, certo? Mas você talvez se espante ao saber que há uma correlação de 0,8070771 entre o número de gols marcados na série A do Brasileirão no formato de pontos corridos de 20 times e a quantidade de homicídios no Estado de SP no período de 2005 a 2014.

LongShot1O que isso quer dizer? Nada. Rigorosamente nada. Algum incauto se arriscaria a dizer que a queda de homicídios foi causada ou mesmo influenciada porque temos menos ocasiões em que se balançaram as redes pelo Brasil? Provavelmente não. Mas sempre haverá um pseudo-acadêmico ou agitador intelectual para racionalizar a correlação de variáveis independentes. Certamente diria que a euforia gerada pelos gols gera choques entre torcedores ou ainda que a emoção de partidas com mais gols incita as pessoas ao consumo de álcool, o que gera mais violência e por aí vai. Long shot, não? Pensando bem, até daria para fazer um artigo ou uma palestra a respeito. Se forem citados filósofos alemães ou sociólogos franceses, a argumentação será absolutamente convincente e a mensagem final, altamente sedutora.

Mais público, menos gols

Mas, e se a relação entre as variáveis for mais íntima, só que o comportamento entre elas for inesperado? No exemplo a seguir, os números mostram que, pelo menos no Brasil, na série A dos últimos anos, quanto mais público nos estádios, menos gols (correlação negativa: -0,679566).

LongShot2

Oi? O público de certa forma exerceria uma pressão psicológica nos atacantes a tal ponto de atrapalhá-los? Ou seria o caso de a torcida fazer com que os goleiros se superem? Ou a ordem seria inversa: quanto mais gols, menos pessoas comparecem aos estádios?

Em ambos os exemplos, a própria Estatística pode nos salvar do embaraço. No segundo caso, se em vez de 2003-2014 pegássemos o período 2005-2014 (com a justa justificativa de isolar apenas o período em que a fórmula do campeonato não mudou), teríamos uma correlação muito fraca (-0,105444), mostrando que os fenômenos não têm de fato nada a ver. No primeiro caso, se a relação existe, os demais estados do Brasil, principalmente aqueles com maior representatividade na série A, também deveriam ter apresentado queda no seu índice de violência, o que não é verdade.

Se com essas séries históricas citadas acima cruzarmos as estatísticas de fecundidade do IBGE, as conclusões podem ser ainda mais bizarras (todas relativas ao período 2001-2014): quanto maior o público nos estádios, menor a taxa de natalidade (-0,590646 – até que faz algum sentido…), ou quanto mais gols, mais bebês nascem (0,623158 – também tem lá seu simulacro de verdade inocente), ou ainda a ilação mais perigosa – e errada – entre homicídios e fecundidade (0,926013 – essa conclusão, em particular, pode ser extremamente deletéria nas mãos de um parlamentar demagogo ou de um jornalista fascistoide).

Pedindo licença aos filólogos e tradutores certificados, humanos ou eletrônicos, arrisquemos inferir que o termo “long shot” teria origem no chute a gol de longa distância do futebol – americano ou quiçá até do soccer. Long shot também significa uma tomada fotográfica ampla, mostrando toda a cena. Dar chutões para a frente pode sim valer a pena. Mas é preciso saber o momento certo, ter ampla visão do contexto e ter a destreza necessária para executar o tento conforme pensado. Do contrário, somos pseudo-pensadores, fazendo análises até verossímeis, mas fundamentalmente erradas.

Qual é o ponto aqui dessa verborragia toda, afinal? Simples: não se deixe enganar nem pelo senso comum, nem pelas estatísticas.

 

PS: Para se divertir com vários exemplos estapafúrdios de correlações, acesse o site Spurious Correlations.

  1. Relembrando: correlação 1,00 significa que duas variáveis se comportam exatamente do mesmo jeito; -1,00, que são perfeitamente contrárias; 0, que não têm correlação alguma. Considera-se que a partir de 0,70 (ou -0,70 para baixo), a correlação é alta. ?

 

[Foto: Michael Blann/Lifesize/Getty Images, da página http://entertainmentguide.local.com/mark-soccer-field-killing-grass-3207.html]

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