FÔLEGO, GULA E HÁBITO

FÔLEGO, GULA E HÁBITO

FÔLEGO, GULA E HÁBITO

Dia desses joguei bola na praia. Havia alguns anos que não participava de uma pelada. Joguei com minha inabilidade de sempre, mas com uma novidade: fôlego. Ajudei na defesa e no ataque, busquei bola dividida, marquei. Na minha autopercepção enviesada e narcisista, senti-me um verdadeiro Robben das areias. Não lembro de alguma vez na vida ter jogado sem ficar ofegante a ponto de achar que cairia morto a qualquer momento. Pulmões a mil, coração acelerado e muitas vezes cabeça latejando – inclusive quando era um moleque, época em que se espera inesgotável fonte de energia e disposição. Por que eu tive fôlego dessa vez? Explico a seguir.

No dia 17 de setembro de 2012, por volta das 6h da manhã, decidi que começaria a correr. Já tinha tentado outras vezes, mas a vontade não resistia à segunda ou terceira tentativa. Assim, desci do apartamento e caminhei 3,11km, em 38min46s. Usei como pretexto para mim mesmo – ou motivador, dependendo da interpretação – conhecer melhor o bairro para onde havia acabado de me mudar, a Vila Madalena, com suas escadarias, becos, grafites, casas e galerias de arte. Geek que sou, baixei um aplicativo para iPhone que registrava as caminhadas.

No dia seguinte, 4,05km. Dois dias depois, 4,26, e fui gradualmente aumentando distância e velocidade, sempre mantendo a frequência de dias em que corria e caminhava. Sou fascinado por estatísticas, então acompanhar a evolução através do app era um motivador adicional para vencer a preguiça e a suposta falta de tempo. Passou-se um mês, passaram-se dois, seis meses, e minha competitividade (ou obsessão, depende aqui também da interpretação) fez com que eu buscasse distâncias e velocidades cada vez maiores, o que quase me causou lesões irreversíveis. Reduzi um pouco, incluí musculação sob orientação de um excelente personal trainer, e assim consegui manter a frequência dos treinos e das provas de corrida.

E por que essa tentativa foi diferente das anteriores? Por que dessa vez eu mantive o ritmo e nas outras desisti irremediavelmente? Sabemos que o bicho humano é insondável, e seus mistérios, imponderáveis. Tentei decifrar esse enigma lendo um ótimo livro (“O Poder do Hábito”, Charles Duigg, Editora Objetiva), a partir do qual especulei algumas hipóteses. Talvez porque não havia utilizado os elementos básicos para transformar a corrida em um hábito, talvez porque eu antes  não tentava algo gradual, talvez porque não colocava um objetivo alcançável, ou talvez um pouco de tudo isso e ainda de mais várias outras ideias que não são objeto desse texto aqui. Cito apenas um elemento extra que foi altamente eficaz nesse processo, por ser pitoresco e por ilustrar que a corrida, apesar de ser à primeira vista uma atividade individual, é na verdade algo eminentemente social: uma aposta que lancei a um grupo de amigos. A competição consistia em medir quem de nós perderia proporcionalmente mais peso em seis meses. As regras eram apenas: não era permitido tomar remédios nem mutilar partes do corpo para diminuir a massa corpórea. E os quilos foram ficando pelo caminho: dois, cinco, quinze, vinte! Evidentemente isso também melhorou a performance nas corridas, o que gerou um círculo virtuoso que já perfaz um total de, segundo o Nike+, 1550Km em 261 corridas e que teve seu ápice em uma meia maratona.

Cada um tem seus motivos, cada um tem sua forma de manter-se compromissado com a corrida, cada um tem seus horários e locais que melhor se encaixam à rotina diária. No meu caso, no início, eu parava na metade do caminho de volta para casa para correr no Parque do Povo, garantindo o treino do dia e evitando o trânsito bestial de Sampaulo. Bingo! Tinha assim um incentivo imediato não relacionado ao exercício em si: não perder tempo parado em um previsível engarrafamento. Basta encontrar o seu modo e começar. Nerd que sou, prefiro correr ouvindo podcasts (recomendo Freakonomics Radio, TED Talks, Trip FM, MacMagazine, entre tantos outros) a música, embora tenha meus momentos musicais e outros em que quero apenas ouvir minha respiração.

E por que escrevo isso agora? Em parte porque me dei conta que nesta semana completam-se dois anos dessa primeira caminhada, em parte porque hoje participei de uma corrida que teve duas largadas e duas chegadas (10K + 5K) e a overdose de endorfina me relembrou como essa sensação é boa. Tão boa, que todos deveriam ser informados que qualquer bípede (que esteja saudável, claro) é capaz de correr. Além disso, para esclarecer que o estilo de vida e as motivações de quem corre não são exatamente aqueles que o senso comum aponta.

Sempre fui um sedentário convicto. Ideológico, orgulhoso e defensor da modorra física quase como um requisito para a evolução intelectual ou espiritual. Exercitar-se era para mim não apenas algo desnecessário, mas até indesejável. Com o hábito de correr, isso evidentemente mudou. E mudou principalmente porque vivenciei um benefício contundente: com atividade física, pode-se fazer mais coisas e melhor – como jogar bola com fôlego, por exemplo. Mas não se trata apenas disso.

Corro para comer. Corro para poder saciar a gula e o prazer em ingerir carboidratos sem tanto remorso. Corro para beber também. É matemática elementar: se não quero ou não consigo consumir menos calorias, então tenho que eliminá-las de alguma forma. Comecei a correr para continuar a usufruir desses prazeres glutões; o que eu não imaginava é que correr seria em si um prazer. Se você já chegou ao ponto em que teve a sensação que não pararia de correr nunca mais, num impossível moto-contínuo biológico, sabe a que me refiro. Toda e qualquer corrida é chata no início, é dolorosa. Você começa a corrida ou caminhada pensando: “pra que inventei de vir correr hoje mesmo?”, mas depois de uns dez ou quinze minutos você entra em transe, inundando seu cérebro de endorfina. Lembrar disso antes de começar o treino é uma ótima forma de lutar contra o pensamento ah-hoje-não-vou-treinar-de-jeito-nenhum. Corro também para, por alguns minutos, não pensar em nada. Para dormir melhor. Para acompanhar a rotina dos meus filhos, assim como para aumentar as chances de estar vivo quando eles tiverem os cabelos brancos que hoje já tenho.

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