Flor do Pântano em Estufa

Flor do Pântano em Estufa

 

O futebol brasileiro – aquele, não esse – era uma flor do pântano, o único fruto benigno do nosso subdesenvolvimento.

Sim, do subdesenvolvimento. Nas décadas de formação e apogeu daquilo que chamamos de futebol brasileiro, entre os anos 20 e 60, apenas uma de cada quatro crianças estava matriculada na escola. É isso mesmo. Os grandes craques do passado, quando meninos, jogavam bola o dia inteiro: de manhã, de tarde e de noite. E aqueles que estavam matriculados em alguma escola gazeteavam as aulas à vontade. Não havia um sistema eficiente de coerção que os impedisse de trocar os estudos pelo futebol.

Jogavam bola livremente, nas várzeas, nos terrenos baldios, nas ruas, inventando o futebol a partir de um conhecimento básico das regras.

Não se pode omitir a importância do contato com o futebol praticado em outros países para que chegássemos ao estilo vencedor de 58 e 62. As sovas que levamos dos ingleses, logo no início, e dos argentinos, até os anos 40, o confronto com a Itália na Copa de 38, a derrota para o Uruguai em 50 e para a Hungria em 54, a malfadada excursão de 56, e a presença dos treinadores húngaros, Doris Kürchner e Bela Guttmann, e do paraguaio Fleitas Solich, comandando alguns de nossos times, foram fundamentais para o amadurecimento do nosso jogo.

Noves fora os gringos, assombramos o mundo, no pós-guerra, com um futebol que afrontava a lógica cartesiana europeia. Nosso futebol era barroco, anti-moderno, driblava quando devia passar e passava pro companheiro mais improvável, de curva: sem régua, nem compasso, nem prancheta. (E o povo que arrastou a escravidão até as portas do século XX deve à sua matriz africana uma linguagem corporal, uma relação com o corpo que nos permitiu dar tratos à bola de maneira muito mais íntima e eficiente; criamos um estilo em que a relação do indivíduo com a bola precede a relação do indivíduo com o próprio jogo.)

Nosso futebol foi um produto do encontro de filhos e netos de ex-escravos com migrantes nordestinos e caipiras e imigrantes pobres europeus nas urbes incipientes de um país agrário, institucionalmente desorganizado e economicamente claudicante, que não oferecia nem escola, nem emprego para todos, e que, por isso mesmo, em contrapartida, oferecia tempo e espaço para os mais diversos tipos de “vadiagem”, entre os quais, a pelada e o samba.

Corte para 2014. Temos 98% das crianças frequentando a escola. Somos um país urbano. Não temos mais várzeas, terrenos baldios e a grande quantidade de carros impossibilita que se jogue bola nas ruas. O país se desenvolveu.

Esse desenvolvimento, contudo, não significa que saímos do pântano. As escolas públicas, em sua grande maioria, não têm sequer uma quadra de esportes e as crianças não estudam em horário integral. Onde os meninos vão jogar bola? Nos clubes? Nas escolinhas de futebol? Sim, mas sempre sob orientação. Não podem mais jogar livremente, inventando o seu jogo a partir de um conhecimento básico das regras. Estão sempre seguindo ordens, procurando se adequar aos conceitos e às regras dos “professores”.

E quem são os “professores”? Geralmente, pessoas que não têm nem formação, nem preparo intelectual para educar, para ajudar uma criança a virar um ser humano integral, um cidadão consciente, um jogador emancipado dentro de campo.

São esses “professores” que, há anos, têm dado preferência aos mais altos, aos mais fortes, aos que correm mais, aos mais disciplinados e obedientes, em detrimento dos mais habilidosos, dos mais criativos e dos indomáveis.

Foram esses “professores” que, primeiro, acabaram com os pontas, depois, com os camisas 10, e depois, com os camisas 8 – falando de modo bem simplista, como se Nilton Santos e Júnior, Djalma Santos e Leandro, ou Zito e Falcão pudessem ser enquadrados em algum estigma de número de camisa.

Mas os tais “professores” não têm culpa: são produtos de uma sociedade que há 500 anos cultiva a desinteligência.

Acabou-se o tempo da geração espontânea. Acabou-se o tempo do quem sabe, sabe; do quem pode, pode, e quem não pode, se sacode. No jogo da globalização, quem não sabe, aprende; quem não sabe, estuda. O “samba” não é mais, necessariamente, um privilégio; quem quer, aprende “samba” no colégio.

O desenvolvimento econômico acabou com as condições que existiam para a geração espontânea do nosso futebol e não soubemos criar as condições para reproduzi-lo em “laboratório”. Não tínhamos ciência do nosso jogo. Não nos ocorreu inventar um método de cultivar a flor do pântano em estufa. Aos espanhóis, alemães e holandeses ocorreu. Não exatamente a nossa flor. Fizeram uns enxertos. Cada um a seu modo.

Eis que estamos diante de um ponto de virada: se queremos resgatar o nosso bom e velho futebol, se queremos preservar o seu DNA para as gerações futuras, precisamos dar um salto civilizacional. (O mesmo vale para a nossa música, mas isso é outro capítulo.)

E era disso que tratavam as manifestações do ano passado: o país se desenvolveu, sim, mas não o suficiente. Queremos, podemos e precisamos de mais. De muito mais. Estamos no meio do caminho. Precisamos subir mais um, dois, três degraus. E temos pressa.

Para tanto, precisamos de escolas com instalações adequadas, com professores bem formados, com uma filosofia libertadora, onde as crianças tenham tempo, espaço e atenção para descobrir e desenvolver suas potencialidades. Dessas escolas sairão os engenheiros e médicos que nos faltam, os cientistas que nos faltam, os artistas e os amantes da arte que nos faltam, os bons políticos que nos faltam, os treinadores que nos faltam, e os craques, que antes não faltavam, mas agora faltam.

Comentários

Comentários