EPIFANIAS DA SEMANA: GANDHI, OBAMA, DILMA E ACIOLI

EPIFANIAS DA SEMANA: GANDHI, OBAMA, DILMA E ACIOLI

 

Sempre achei que o conflito Índia-Paquistão fosse milenar, calcado em ódios recíprocos de cunho não apenas religioso, mas também étnico e cultural.

Eis que leio na edição da revista The New Yorker desta semana um artigo provando exatamente o contrário: que o subcontinente indiano por mais de mil anos foi um lugar de convivência pacífica entre povos de origens distintas, e de sincretismo religioso. Os três séculos de colonização britânica, somados ao seu ocaso repentino e à concomitante e subsequente exacerbação política, fizeram com que se chegasse à “solução” trágica conhecida como “Partition”, que forçou a migração em questão de meses de pelo menos quinze milhões e causou a morte de mais de um milhão de pessoas. As consequências desse conturbado período – meados do século XX – perduram até hoje numa escala tão profunda, que esse estado de coisas parece atavicamente arraigado nos povos da região desde sempre. O artigo, baseado em meia dúzia de aclamados livros de relatos e análises históricas, chega a questionar até mesmo o quanto Mohandas “Mahatma” Gandhi poderia ter contribuído para evitar tanto sangue derramado, além de trazer também excertos da literatura pungente de Saadat Hasan Manto, escritor muçulmano originário da Índia, que através de contos ficcionais em língua Urdu retrata com fidedignidade o horror da separação física de povos que não apenas coexistiam geograficamente, mas que tinham afinidade cultural, filosófica e linguística, muito mais fortes que as diferenças religiosas.

Sempre vi, de longe, os Estados Unidos da América como um país maniqueísta: democratas e republicanos, liberais e conservadores, ateístas e crentes, puritanos e libertinos, autodeterminação dos estados e supremacia da União.

Eis que ouço nesta semana um podcast em que Barack Obama é entrevistado na garagem da casa do comediante Marc Maron. Nela, Obama fala da própria criação em diferentes culturas, da inadequação de ser filho de branca com negro num país em que tudo tem que ter uma classificação. Fala também da importância de despolarizar a discussão política do cotidiano do cidadão comum e na grande imprensa. Isso poucos dias após a chacina ocorrida numa igreja na Carolina do Sul, motivada pelo ódio racial, e poucos dias antes da Suprema Corte decretar a igualdade do direito ao casamento independente de gênero. Esses dois episódios suscitaram debates acalorados na mídia, nas redes sociais, e também nos bares e corredores de empresas e universidades. O primeiro, sobre o direito de manter a bandeira dos Confederados – estados escravistas que se rebelaram contra a União, culminando na Guerra Civil Americana – em espaços públicos nesses estados do sul, além da eterna discussão do direito ao uso de armas. O segundo, sobre a tecnicalidade jurídica da decisão da Suprema Corte: basicamente se a União poderia se sobrepor à determinação de cada estado. Venceu a União, baseada no que o juiz Anthony Kennedy sumarizou: “Um indivíduo pode reivindicar o direito a proteção constitucional quando ele ou ela for prejudicado, mesmo que a maioria da população discorde e mesmo que o legislativo se recuse a atuar.” (tradução livre). São temas, todos eles, que abordam a pluralidade da vida.

Sempre achei que o futebol do Brasil fosse o melhor do mundo, e que as mazelas atuais fossem resultado direto de desmandos e corrupção de cartolas.

Eis que me deparo, perplexo, com o texto reflexivo do Gustavo Acioli aqui no 433 e sou convencido de que sempre estive enganado. O 7×1 e a patacoada da atuação do Brasil nessa Copa América não deveriam mais surpreender. Assim como não deveriam surpreender os rocambolescos discursos improvisados de Dilma Rousseff, que também nesses dias conseguiu fazer uma reflexão filosófico-histórico-cultural-evolutiva sobre bola, esporte, “mulheres sapiens”, e índios brasileiros e americanos. Justiça seja feita: ela também abordou o “nosso apreço pela diversidade e pluralidade, pelo respeito à diferença, tolerância e convivência pacífica e fraterna entre todos os povos do mundo e etnias”.

 

 

[Imagem a partir de fotos dos sites CNN, Estadão e Playbuzz, e da página pessoal de GA no Facebook]

Comentários

Comentários