DESAVENTURADO

DESAVENTURADO

Quem gosta de futebol já deve ter ouvido falar do Bangu, simpática equipe da Zona Oeste do Rio, um clube de origens proletárias, que joga num estádio batizado de Proletário, cuja última glória foi também uma das únicas – o título carioca de 1966 – e que teve entre seus craques alguns monstros sagrados como Zizinho, Domingos e Ademir da Guia. Fundado pelos ingleses administradores da fábrica de tecidos, o Bangu Athletic Club, cujos jogadores, na primeira metade do século passado, foram apelidados de “mulatinhos rosados”, é centenário.

A história do clube está visceralmente ligada a uma das passagens mais tristes do futebol carioca: a perda do Brasileiro de 1985, em pleno Maracanã. Eu e milhares de torcedores dos quatro grandes clubes do Rio, além da pequena e fiel torcida banguense, com sua nostálgica charanga, fomos torcer pelo time que, como o América, é o segundo amor dos cariocas. A festa acabou em tragédia, que ganhou contornos definitivos quando o ponta-esquerda Ado bateu para fora o sexto pênalti da série que decidiu o título para o Coritiba.

Pobre Ado. Sujeito simples, boa gente, prata da casa, querido no bairro, adorado pelos companheiros, mas que acabou personificando o fim do sonho de um Bangu grande. Eu sei que muitos jogadores já perderam pênaltis importantes, como Zico na Copa de 1982. Acontece que ali não seria – como não foi – impossível vermos o Brasil campeão do mundo outra vez. Mas e o Bangu? Quando terá outra oportunidade de chegar ao posto mais alto do futebol nacional? Nunca mais. É o lado mais triste da desventura de Ado.

Recordo-me claramente de sua figura: magrelo, arisco, pernas finas que pareciam incapazes de agüentar uma dividida. mas era veloz e jogava com raça e foi responsável, ao lado dos craques Marinho e Cláudio Adão, pelas principais jogadas de ataque do time. Voltei a vê-lo, quase 20 anos depois, num documentário da ESPN Brasil. Foi difícil conter a emoção. Ado estava um pouco mais gordo, mas sua humildade e gentileza permaneciam inalteradas. Na entrevista a Helvídio mattos, relembrou, com indisfarçável dor, o pênalti perdido.

Entre lágrimas, explicou que tinha sentido uma contusão e que jamais imaginou que pudesse ser escalado. Como cada equipe tinha batido cinco pênaltis e a série continuava empatada, novos jogadores precisaram ser escalados. Foi então que o treinador lançou um olhar de súplica para Ado, que recolocou meias e chuteiras e partiu para o sacrifício. Havia escolhido bater à direita de Rafael, mas, quando viu que o goleiro acertou o canto, mudou o lado da cobrança. Mandou para fora. E o Bangu nunca mais será campeão brasileiro.

O que eu gostaria de dizer ao Ado, é que aquela equipe não será esquecida. A população proletária da agradável e calorenta Zona Oeste será eternamente grata àquele ime time que fez todo mundo sonhar alto. Tão alto como nos tempos do Mestre Ziza e do “Divino” Domingos da Guia.

Texto originalmente publicado no Jornal do Brasil, em 02/09/2006.

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