COMENDO PONTOS

COMENDO PONTOS

“No pattern on my quarter, cut your own path”, diz Owen enquanto Duncan assume sua última vida num jogo de Pac-Man. O belo e surpreendente “The Way Way Back”, que comecei a assistir esperando uma espécie de Sessão da Tarde, acabou por se provar um sincero e delicado libelo contra todos os conformistas do planeta. No filme, o garoto Duncan (que é a cara do Marcos Lima, do Histórias de Cego) usa o parque aquático Water Wizz, e a curiosa tutela de Owen, como um porto seguro para encontrar o seu próprio jeito de lidar com os desafios da vida.

Enquanto jogava Pac-Man, Owen se dizia ganancioso, e completava que sua ruína era tentar comer todos os fantasmas piscantes em vez de simplesmente garantir o resultado comendo os pontos. Mesmo assim ele seguia divertidamente tentando. Talvez leve mesmo um tempo para entendermos que em pelo menos uma coisa não deveríamos copiar os esquemas europeus. Para aceitarmos que no futebol, nós é que deveríamos ser o modelo a ser seguido. O pulo no vazio é o nosso instinto, e a ode ao herói, a nossa alma. Fodam-se os pontos corridos, queremos Pelés, Garrinchas, Ronaldos e Romários! Queremos mais do que um campeão que acumule pontos burocraticamente. Queremos batalhas épicas onde todo favoritismo e regularidade sejam desafiados pela audácia imponderável do talento. O agudo nos cai bem!

Não é à toa que Copa do Mundo é disputada no confronto direto, e curiosamente desde a implementação por aqui do campeonato à moda dos pontos corridos que não somos campeões mundiais. Fato irrefutável, que nem mesmo o mais coxinha dos defensores da prática de comer pontinhos pode reclamar. Desde então, estamos mais para 7 x 1 do que para futebol show. Nossas derrotas são mesmo espetaculares, e até mesmo menos doídas. A verdade é que apesar de todos os nossos grandes jogadores jogarem na Europa, e portanto neste modelo modorrento, suas almas foram forjadas nos campos de pelada: onde quem perde sai. Temos em nós, desde sempre, a vocação para as finais.

Na minha opinião, mesmo contra tudo e contra todos, o nosso Campeonato Brasileiro deveria ser Water Wizz Waterpark do “mata-mata”.

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