CHEGADAS E PARTIDAS (DE OITAVAS)

CHEGADAS E PARTIDAS (DE OITAVAS)

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Cadu nunca ligou muito para futebol. Por isso, quando se deu conta de que o voo que o traria de Madri para o Rio faria com que estivesse a 11 mil metros de altura enquanto Brasil e Chile estivessem em campo pelas oitavas de final da Copa, achou que o custo de trocar a passagem não compensava. Ledo engano, não se pode desprezar o efeito que uma fase de mata-mata é capaz de produzir, mesmo com os cintos afivelados.

Ao final do primeiro tempo, ainda em voo de cruzeiro, o piloto da aerolínea portuguesa limitou-se a anunciar o empate e dizer que o jogo seguiria para a prorrogação. Aquela intervenção no alto-falante acordou algo em Carlos Eduardo, até então impassível, acompanhando mais um episódio de seu seriado favorito na telinha à sua frente.

Ficou aguardando mais notícias, mas nada mais partiu da cabine de comando, silêncio retumbante. Uma angústia sem precedentes tomou conta da mente e também do corpo de Cadu, que, já em meio aos procedimentos de aterrissagem, não se aguentou de vontade de ir ao banheiro. Um pretexto também para circular um pouco pelo avião e se aproximar da cabine. Quem sabe pudesse ao menos dividir sua angústia com outro torcedor arrependido.

Mal sabia ele que, a essa altura, seu sofrimento não era maior que o de milhões de brasileiros que, lá embaixo, acompanhavam o chute chileno acertar o travessão, dentro do Mineirão ou por meio de qualquer tela ligada em todo o país. Diante de uma delas, seu amigo Pablo, um uruguaio mordido pela dura pena aplicada pela Fifa ao seu craque dentuço, assistia a tudo, a poucos metros do Maracanã, junto a um grupo de tijucanos ensandecidos.

A aflição brasileira serviria como um aquecimento para o que estava por vir para ele. Uma hora mais tarde, Pablo estava dentro da arena que um dia foi o maior estádio do mundo, disposto a ajudar a sua própria seleção como pudesse. Ele era um ponto celeste em meio a um manancial amarelo. Uma maioria composta com a ajuda de brasileiros, é bem verdade, mas também por muitos colombianos, em número esmagadoramente maior que o de compatriotas de Suarez.

A seu lado, devidamente trajado com minha camisa do Botafogo, tentei apoiá-lo. Não era preciso. Com o mesmo atrevimento de um Ghiggia que, bem antes dele nascer, naquele mesmo local calara 200 mil brasileiros, Pablo bradou seu hino como se de Montevidéu seu filho Teo pudesse ouvi-lo.

E talvez pudesse mesmo. Aos dois anos, o pequeno uruguaio, filho dele com uma brasileira, já havia aprendido que sua pele é azul como a cor do céu. Ao lado do pai, sofreu pela contusão de Suarez antes da copa, torceu desesperadamente em cada jogo, sempre vestindo a camisa 9 do seu craque. Jovem demais até para compreender a atitude infantil que tirou o artilheiro da Copa, Teo encarou a partida repentina de Pablo para o Brasil como uma convocação de seu pai para a Celeste. Era o único substituto à altura de Suarez.

No voo da TAP, seu amigo Cadu estava a ponto de ser retirado pela tripulação do banheiro claustrofóbico, onde clandestinamente tentava acionar o celular, em busca de notícias. O avião se aproximava do Galeão e, para ele, um recém convertido em torcedor fanático, o jogo já tinha terminado. Se o piloto português havia permanecido em silêncio, era porque não queria ser o portador de tão má notícia.

Acometido por uma inusitada superstição futebolística, cogitou ter sido o responsável pela tragédia. Enquanto voltava para sua poltrona, inconformado, chegou a amaldiçoar o mom?ento em que ignorou a coincidência de seu voo com  o jogo de oitavas. “Nunca mais!”, repetia para si mesmo, em voz alta, causando estranheza a quem o via regressar do banheiro e pensava se tratar de um mal estar causado talvez por um presunto cru comido em terras madrilenhas.

Cadu sentou em sua poltrona com o avião já voando baixo. Olhou pela janela, desgostoso, e avistou a Baixada Fluminense. De repente, morteiros começaram a pipocar por sobre as casas e prédios, deixando o céu logo abaixo do avião coalhado de nuvenzinhas. Um sorriso besta se abriu em seu rosto.

Os dois se encontraram mais tarde, no Baixo Gávea, onde um bebeu para esquecer a derrota para a Colômbia e o outro para lembrar que não se ignora uma Copa. Nunca mais!

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