A PRESENÇA DA AUSÊNCIA

A PRESENÇA DA AUSÊNCIA

No dia 27 de agosto de 1983, o Fluminense derrotou o Goytacaz no Maracanã com dois gols de Assis.  A data talvez seja absolutamente desimportante para os demais torcedores do clube que tanto amamos, mas, para este escriba, ela foi uma epifania. Naquele dia, precisamente naquele jogo, ao ver o segundo gol do nosso camisa dez – então apenas uma promessa do grande carrasco de adversários que viria a ser –, eu não pude conter a emoção. Ali eu não apenas tive a certeza de que ganharíamos o Campeonato Carioca, mas também percebi que aquele elenco talentoso, unido, valente e absolutamente desprovido de vaidades poderia conceder as maiores alegrias com as quais um torcedor que acabara de completar 18 anos de idade seria capaz de sonhar. Um anjo tricolor deve ter dito amém.


No dia 23 de junho de 1985, a Seleção Brasileira empatou de 1 x 1 com o Paraguai em um Maracanã abarrotado, com nada menos do que 140 mil pagantes. A data talvez seja absolutamente desimportante para os demais torcedores brasileiros, mas me marcou profundamente. Naquela tarde, pela primeira e única vez em toda a vida, eu torci contra o Brasil. E não era qualquer Brasil. Era o Brasil que três anos antes havia me elevado ao nirvana do futebol esplendoroso para, logo em seguida, consumir os restos da minha alma nas caldeiras do inferno da tristeza esportiva. Tudo por causa de uma derrota para a Itália no para sempre maldito estádio Sarriá, felizmente e merecidamente varrido pela poeira dos tempos.


O que me fez torcer contra o Brasil de Telê Santana? O que não é a pergunta certa, mas quem. Quem me fez torcer pelo adversário foi um dos jogadores que mais amei em tantos e tantos anos de arquibancada: Julio César Romero, mais conhecido como Romerito. Foi dele o gol de empate dos paraguaios, após o saudoso Sócrates abrir o marcador para o Brasil. Dom Romero e Doutor Sócrates: jogadores tão refinados, tão politizados, tão corajosos e tão críticos de tudo o que havia (e há) de podre no futebol que não poderiam ser chamados apenas pelo nome. Um título – de nobreza ou de notório saber – se fazia necessário. Um tinha nome de filósofo, o outro de imperador. Nomes a altura das maravilhas que eles produziram dentro e fora de campo.


Aquela não foi a única vez que o Dom e o Doutor se cruzaram em campo – e nem de longe a mais importante. O grande embate entre esses dois estetas dos gramados ocorreu pouco mais de um ano antes do confronto de suas seleções no Maracanã. Estou falando, claro, do épico Fluminense x Corinthians no Morumbi, em 13 de maio de 1984, pelas semifinais do Campeonato Brasileiro. O Com gols de Assis e Tato, o Fluminense venceu por 2 x 0 uma partida que, para júbilo de Carlos Alberto Parreira, os jornais da época ousaram descrever como a maior aula de futebol já vista na história do futebol brasileiro. Uma aula de tática, técnica, garra, disciplina e espírito de equipe. A Democracia Corintiana era, sem dúvida, o time da moda. Mas deu o azar de chocar-se com um time eterno.


Por conta desses e de muitos outros jogos, em jovens e inesquecíveis tardes de domingo, eu e milhões de tricolores nos apaixonamos perdidamente por um time que, se não foi o mais célebre e vencedor da nossa história, foi certamente aquele que de forma mais categórica refletiu o orgulho e a essência de ser tricolor. Se houve um time que fascinou pela sua disciplina em mais de um século de história do clube, esse time foi o time tricampeão carioca e campeão brasileiro de 1984. E como é inevitável escrever sobre o Fluminense sem esbarrar na genialidade de Nelson Rodrigues, acrescento que, para todos da minha geração, a saudosa escalação se tornou um soneto perfeito:


Paulo Victor, Aldo, Duílio, Ricardo e Branco

Jandir, Deley e Assis

Romerito, Washington e Tato.


Naquele distante sábado, dia 27 de agosto de 1983, feliz com a vitória sobreo Goytacaz, eu deixei o Maracanã e voltei correndo para casa, em Madureira. Estava ansioso para jogar umas partidas de War com o meu irmão e preparar as boas vindas para nosso pai, que na manhã seguinte chegaria de uma longa viagem de trabalho para Nova York e Houston. Eu ainda não tinha trocado a roupa do jogo quando o telefone tocou.


Meu pai jamais voltaria para casa.


Vítima de um enfarto fulminante dentro do avião, ele morreu com apenas 50 anos de idade a caminho do hospital da pequena cidade de Humble, no Texas, onde o piloto fez um pouso de emergência para, em vão, tentar salvar a sua vida.


Eu fui abruptamente privado da chance de conversar pela última vez com o meu pai. Não tive a chance de trocar umas simples palavras com ele sobre o time que havia enchido meus olhos. E aqui faço uma revelação que alguns poderão achar que não passa de truque de escritor – mas que os que me conhecem sabem que não tem um pingo de inverdade. Pouco antes do esquife com o corpo do velho Marcos Caetano ser coberto de terra, eu bem que tentei, mas simplesmente não consegui evitar o pensamento nem mesmo segurar as palavras. Enquanto a vida que eu conhecera se desmoronava inapelavelmente, a única coisa que me ocorreu dizer para um amigo que estava por perto, abafando o choro, foi: “Que tristeza ele não poder ver o Fluminense ser campeão este ano. Porque nós vamos ser!”. Na hora extrema em que um menino desaparecia definitivamente para dar lugar a um homem, o Fluminense mais uma vez estava ao meu lado – e envolvia o meu amado pai com suas glórias e tantas histórias.


No domingo seguinte, em homenagem ao meu velho, fui ao Maracanã para ver o clássico com Botafogo. O jogo acabou empatado, gol de Washington. Mas o Tricolor foi campeão naquele ano. E no seguinte. E no seguinte. Nos meus devaneios de torcedor e filho amoroso, gosto de pensar que o Fluminense passou três anos honrando a memória do grande torcedor que havia partido.


Pena que ele não viveu para ver Dom Romero, com sua incontestável fidalguia, vestindo as três cores que traduzem tradição. Mas algo me diz que, na final do Campeonato Brasileiro contra o Vasco, aquela bola que beijou a trave e caiu carinhosamente aos pés do nosso paraguaio teve alguma intervenção do meu grande herói, que torce por nossas façanhas lá do andar de cima, agora ao lado de Assis e Washington.

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