A panela do terraço do rei

A panela do terraço do rei

Se no Brasil a moda é bater panela no terraço Gourmet, na Espanha o medo é de vaia ao hino nacional. Como você, raro leitor do 433, está cansado de saber, as regiões autônomas País Basco e Catalunha buscam incessantemente a independência da Espanha, seja pelas armas do ETA ou pelo Futbol Club Barcelona, que se denomina “mais que um clube”. Naquelas coincidências patrióticas que só acontecem em filmes do Mel Gibson com metade da cara pintada de azul, a final da Copa do Rei 2015 será entre Athletic Club de Bilbao e Barcelona. Um famoso por aceitar apenas jogadores Bascos, o outro uma instituição cultural catalã. Ambos oposicionistas ao poder da capital.

Para quem não sabe, a Copa do Rei é a 2ª competição da pátria do Locomía. Uma vez, que todo país que se preze tem, pelo menos, duas competições nacionais, sendo um campeonato de ponto corrido com turno e returno e uma copa decidida no mata-mata. Na tricampeã europeia Espanha não é diferente, porém com uma nuance em relação aos seus vizinhos. O torneio nacional não leva o nome da pátria e sim o de Su Majestad el Rey de Fútbol, para os íntimos, a Copa do Rei. Entretanto a Espanha nem sempre foi uma monarquia. O que acabou por gerar nomes de gosto bastante duvidoso. Como até 1975, quando quem mandava era o ditador Francisco Franco, e a competição era chamada de Copa del Generalísimo, e antes já fora nomeada como Copa do Presidente de la República.

Se o problema fosse só a forma de governo, estaria fácil, porém falta identidade cultural e identificação com o atual rei, filho do antigo monarca, que fora indicado pelo Generalísimo Franco como seu sucessor. A família real foi empossada durante a Guerra Fria pelo militar fascista que derrubou a democracia no preâmbulo da 2ª Guerra. Uma verdadeira aula de quebra de paradigmas. Os fãs de Game of Thrones sabem bem que a expectativa de vida do rei é inversamente proporcional ao peso da coroa. “O rei está morto. Viva o rei”.

O monarca espanhol dos nossos tempos é irrelevante para a vida cotidiana, porém sua figura ganha algum peso no universo alegórico do futebol. Na final da Copa do Rei 2009, entre os “reis de copas” Barça e Bilbao, no Santiago Bernabéu, a estatal TVE cortou o sinal assim que a torcida dos dois times deixou a rivalidade campal de lado e se voltou contra os inimigos em comum, o Real, a capital, o rei e a Espanha. Quando a ensurdecedora vaia começou, o canal do rei cortou o sinal e mandou os comerciais para o ar.

Neste ano, para evitar a indigesta situação, Madri, sede de 64 das 110 finais de copa nacional, alegou problemas estruturais. O Real Madrid, criador do torneio e sede histórica do decisivo certame, avisou que obras tomariam os banheiros do estádio. O Atlético disse que receberá o AC/DC no Vicente Calderón no dia seguinte à final. Com isso, a Real Federação deve mandar o jogo para bem longe, uns 500 km de distância, para Sevilla, para o estádio La Cartuja. Assim espanhol algum usará panela para dar indigestão de derrubar a coroa do rei.

Comentários

Comentários