A geração Nutella do futebol é culpa sua

A geração Nutella do futebol é culpa sua

Os números frios demonstram e esfregam em nossa cara a realidade. Acumulando recordes, empilhando troféus e prêmios individuais. Uma década pertencente a dois homens. Milhões de seguidores em redes-sociais? Mais números, mais exposição. TV japonesa, chinesa, iraniana, brasileira, inglesa, americana, estão todos os dias nos treinamentos. Um mundo inteiro polarizado. Cristiano ou Messi? Barça ou Real? É o clássico mundial. Pode torcer o nariz, chamar de nutella, chorar na rua Javari, bater o pé em moça bonita ou jurar que na Curuzu se joga o futebol “raíz”. Nada disso vai adiantar. A polarização do mercado espanhol fez desse clássico o “produto” mais valioso de quem o detêm. ESPN, FOX, Globo, Band, Esporte Interativo, todos furam suas grades para encaixar a dupla quando jogam. Parece final de Copa do Mundo. Essa polarização causou um desequilíbrio gigantesco na liga espanhola a deixando meio sem graça para falar a verdade. As grandes marcas entopem de publicidade todo o espaço que podem com os personagens desse clássico. Suárez, Neymar, Messi, Iniesta, Cristiano, Sergio Ramos, Bale, James, Benzema. Chuteiras coloridas e caríssimas estão aparecendo cada vez mais tecnológicas nas lojas de artigos esportivos. Crianças fazem temas de aniversários com escudos dos clubes europeus, principalmente, Barça e Real.

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A história recente desses dois clubes no Brasil, com muitos brasileiros protagonistas fez daqui um mercado muito fértil para adoração e ódio. Ronaldo, Romário, Rivaldo, Giovanni, Ronaldinho, Roberto Carlos, Sávio, Beletti, esses caras ganharam muito com a camisa dos dois clubes, fizeram história. Esse lastro foi tão forte que hoje assistimos ao fenômeno das crianças internacionalizadas. Num ginásio de um clube esportivo nos Jardins ou em alguma rua do Jd. São Luis no extremo sul da cidade de São Paulo ou lá do lugar mais remoto e pobre de uma grande cidade, ou ainda num vilarejo do interior profundo é possível ver Bernabeu e Camp Nou lotados. Milionários jogando uma bola e alimentado a imaginação daqueles que você chama de “Nutella”. Hoje, são mais de 11 canais esportivos nas operadoras, todas com links piratas em qualquer aplicativo, facebook, youtube. Fácil de achar, os “nutellas” são web-nativos, não há limites para que consumam esse farto conteúdo. Amigo, um caminho sem volta.

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Garoto brasileiro que trocou uma visita a Disney para assistir o Barça de perto pela Champions League

Nós somos os culpados. Fomos negligentes e soberbos quando avisados que o mercado externo estava secando nossa fonte e levando nossas jóias em troca de dólares suspeitos. Alguns anos atrás dissemos:

– Podem levar! Só aqui na base do Mengão tem uns três iguais à esse aí!
Aliás, foi mais ou menos isso que olheiros rubro-negros disseram em uma visitinha ao Uruguai e não quiseram trazer Suárez.

Imaginamos que a fonte não secaria, que os dias de vacas magras não chegariam e que o melhor futebol do mundo sobreviveria não importa como. E o que aconteceu? O futebol brasileiro acabou. Estádios (Arenas milionárias superfaturadas) estão vazios, audiência das TVs despencam, os melhores das divisões de base não se profissionalizam em seus clubes, empresários estão cada vez mais gananciosos com os “Eldorados” de cada estação. Nos contentamos com um Campeonato Brasileiro competitivo. Aliás, as mesas redondas da hora do almoço gostam de dizer isso:

- É a única liga (?) do mundo que já começa com 12 candidatos ao título –  Na sequência pondera: - O Campeonato está nivelado por baixo.

Oras, é um campeonato ruim, onde todos os times são ruins, logo, qualquer um deles pode ganhar. Não pense que eu defenda a divisão financeira da Espanha só porque elogiei no começo do texto a rentabilidade e o sucesso técnico de Barcelona e Real Madrid, pelo contrário, há outras opções muito interessantes onde o dinheiro é dividido de acordo com o desempenho na última temporada e sua representatividade mercadológica. Uma equação que permite hoje aos ingleses, por exemplo, contratarem quem quiser mesmo com valores inflacionados a cada janela de transferências.

À essa altura do texto te digo: – PARE DE ROMANTIZAR o futebol brasileiro!

A cada vez que você defende o retrocesso do futebol brasileiro, um jogador que poderia te conseguir títulos na verdade renderá dólares as clubes e você não verá a cor desse dinheiro.

O caminho do futebol brasileiro é árduo e dolorido, mais ainda para os torcedores visto que os cartolas não estão interessados na sustentabilidade e retenção de talentos. A estratégia é clara: conseguir dinheiro e títulos sem ligar muito a maneira. Mesmo que para isso acabe canibalizando e prostituindo o mercado. Salários inflacionados para jogadores que jamais receberiam isso num mercado justo e regrado. Bom, não poderíamos esperar que o futebol fosse um oásis no deserto de injustiças que vivemos no país. Compra quem pode e obedece quem não quiser morrer com o prejuízo. Atlético-PR e Coritiba escolheram a briga a comprar com a atitude de não aceitar a mixaria oferecida pelos direitos de transmissão dos clubes no estadual. Os clubes sabem da consequência desse tipo de atitude, querem ser mártires, dar o exemplo e isso deveria ser mais valorizado. Esse tipo de atitude só poderia mesmo vir das periferias da elite do nosso futebol. Os grandes de SP recebem cada R$ 16 milhões para não reclamarem de datas, locais de jogos, horários e regulamentos. E essa estratégia é das mais antigas, a Confederação compra as federações, as federações compram os clubes. Tudo isso com o dinheiro da TV.

Viu só? os Nutellas existem porque tem gente matando a bola aqui com dinheiro. Os Nutellas existem porque o futebol daqui é amador e você quer que ele continue amador. Os Nutellas existem porque o calendário atende somente a programação da maior televisão do país, eles precisam de futebol na quarta-feira a noite e domingo a tarde para fechar a grade e vender aos anunciantes, veja, somente depois da novela ou antes do Faustão. Você vai ao estádio e não consegue voltar por causa do horário? Ninguém liga. Os Nutellas existem porque no fim das contas nós só queremos ser campeões nacionais da “liga mais disputada do mundo” e a Libertadores é a coisa mais RAIZ que podemos querer, mesmo que ela pague mal e faça os times jogarem em cima das montanhas num gramado horrível, cobrando escanteios protegidos pelo batalhão do choque. A culpa é nossa que aceitamos isso, desejamos mais amadorismo para voltar ao futebol RAIZ. Quanto mais RAIZ quisermos mais Nutellas serão criados.

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