A gente sonha a vida inteira e só acorda no fim

A gente sonha a vida inteira e só acorda no fim

São raros os momentos de completo êxtase em nossa vida, e justamente essa raridade é que dá a devida importância a essas ocasiões. Sábios aqueles que sabem reconhecer esses instantes e o valorizam com a devida justiça. O futebol nos ajuda a identificar, reconhecer, e dar o valor a pequenos intervalos de nossas vidas que serão inesquecíveis. Às vezes, caímos na tentação de valorizar as glórias de acordo com o tamanho dessas conquistas. No mundo da bola, principalmente nos últimos anos, cometemos o mesmo erro e fazemos de acordo com o peso do título conquistado: competições inter-continentais, continentais, nacionais e de estaturas diferentes. Variando ainda com o tamanho do seu time de coração. Mas o tempo nos dá oportunidades únicas de amadurecimento e reflexões sobre esse esporte e aprendi muitas coisas, mas a mais importante quero compartilhar com vocês e tem tudo a ver com essa história fantástica do futebol mundial que hoje completa 10 anos. A história mais incrível que pude ver acontecer na minha frente nesses 30 anos de vida.

Era 26 de novembro de 2005, e de verdade? estava pouco me fudendo para a definição de quem subiria à primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Pouco acompanhei a competição e minha torcida em especial era para que a Portuguesa voltasse a série A, até porque em São Paulo todo mundo acaba em algum momento torcendo pela Lusa. A situação não era muito fácil pois precisavam vencer o Santa Cruz no Arruda, em Recife. Não deu. Perdeu para o Santinha do Rosembrick, mas aquela tarde, em Recife também, era outro jogo que entraria para história e me faz estar aqui 10 anos depois recordar o tamanho dessa partida.

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Sinto um orgulho gigantesco de uma conquista que passa longe de meus interesses, me emociono quase todo ano quando chega essa data. Não sou gremista, nem de perto gosto do Grêmio, odeio Paulo Nunes e Jardel, Felipão não quero nem pintado de ouro, meus amigos gremistas que não comemoram nada há muito tempo são verdadeiramente irritantes. Minha maior tristeza futebolística foi no Olimpico. Nem mesmo aquela guria infeliz que chamou o goleiro de macaco, ser ciente de que não é um fato isolado, e ter presenciado “in loco” atos dessa torcida tolerados com uma normalidade assustadora. Nem todos esses fatos e sentimentos são capazes de abalar o respeito adquirido no fim de 2005.

Quis o destino que o maior jogo da história recente tricolor fosse um “Grenau”, e que os principais personagens dessa partida fossem atletas realmente identificados com a três cores imortais. O goleiro herói é um torcedor de luvas e chuteiras, o capitão foi um verdadeiro líder naquela bagunça e transmitia toda sua experiência para seu parceiro do meio-campo, jovem, promissor, talentoso. Igualmente a flecha negra que mataria o Naútico mais tarde naquele sábado: Anderson. Jovem, malandro, chato, metido, rabisqueiro, fumaça, decisivo. Galatto, Pereira, Sandro Goiano, Marcelo Costa, Marcel, Lucas e Lipatin (depois Marcelo Oliveira). Sim, amigo que não sabe do que estou falando. O Grêmio terminou esse jogo com 7.  O Naútico teve dois penaltis à favor durante os 90 minutos, que viraram 120. Esses 7 caras, calaram um estádio com 20 mil pessoas, tiveram outros 4 companheiros expulsos, enfrentaram um vestiário pintado recentemente para impregnar o cheio de tinta, o espaço de aquecimento diminuído com apoio da policia local. Policia que agrediu Patricio quando entraram em campo para impedir que o árbitro fosse agredido. Decisões juridicas sendo tomadas ali à beira do gramado por parte do Grêmio, presidente, ex-presidente, diretores, todos dentro do campo inconformados com a situação. Jogadores fazendo um buraco na marca do pênalti tentando prejudicar o batedor, e para mim, uma completa omissão do artilheiro do time pernambucano, experiente e dono de grande moral com os torcedores. Essa responsabilidade deveria ser dele e de ninguém mais, pipocou. O Grêmio em nenhum momento pipocou. Se indignou, enraiveceu-se, lutou, brigou, foi brioso. Foi vencedor, a maior vitória de um time que já vi na vida!

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Se um dia o torcedor do Grêmio precisar exemplificar o espírito do time, a mística que eles gostam de alimentar, a imortalidade gritada por todos os cantos do Rio Grande esse jogou traz a representatividade perfeita. O Grêmio parecia inócuo ao mal que estavam tentando provocar naquela partida. Galatto foi herói, foi gigante, e deveria ser homenageado um dia. Deveria ganhar uma citação nas dependências físicas gremistas, uma das traves da nova arena deveria se batizada de “Galatto”. Não bastasse o pênalti defendido que já trazia o time de volta ao lugar que nunca deveria ter saído, veio o título que se observarmos friamente hoje está num segundo plano diante das grandes conquistas tricolores, mas deveria ser louvado. Lembrado como o Dia do Grêmio. Um dia imortal.

“A gente sonha a vida inteira e só acorda no fim” – Racionais MC’s

 

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